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V de Vingança 
(V for Vendeta - 2006 - um filme dos irmãos Wachowsky)


Para assumir textualmente o seu comprometimento de causa, V de vingança possui em seu roteiro uma referência metalinguística óbvia, na frase que, elegante e organicamente, define a função desta classe de filmes: "Os artistas usam a mentira para revelar a verdade (...)". Assim, para rivalizar com o poder aforismático desta frase, que V utiliza no final do segundo ato como justificativa para um plano maquiavélico, penso na sentença que introduz o documentário Zeitgeist: Moving Forward (2011): “Numa sociedade decadente, a arte, se verdadeira, deve também refletir esta decadência. E a menos que ela deseje trair a sua função social, a arte deve mostrar o mundo como mutável. E ajudar a mudá-lo”. Desta forma, veremos adiante que a segunda frase, mais do que complementar a primeira, pode ser usada para advertir aqueles que taxaram o filme, de modo grosseiro e tendencioso, como “excessivamente subversivo, pois exalta um ato terrorista como via de transformação social, o que faz de V um anarquista, levando em conta não apresentar um plano político alternativo àquele que intencionava destruir; fazendo da obra uma crítica social niilista”. Com a exceção da última afirmação, o raciocínio descritivo dos detratores da obra está correto, falharam apenas na valoração dos fatos. Portanto, dependerá de nós aceita-los de maneira reacionária ou entende-los - no contexto da obra - como medidas extremas, fatalmente necessárias numa conjuntura política alienante, corrompida e opressora; ou, em outras palavras, quando vemo-nos vitimados pela vilania de um governo venal, validado pela violência que vitupera e desvirtua o valor da vida humana.

  

A introdução da película nos apresenta brevemente o episódio de relevância histórica da vida de Guy Fawkes, soldado inglês católico que teve participação de destaque na Conspiração da Pólvora, como forma de evidenciar a inspiração parcial que este acontecimento exercerá sobre os planos de V. Em seguida, somos apresentados a um contexto político distópico (não exatamente “futurista”, pois a narrativa evidencia aspectos essencialmente contemporâneos), onde, sem a menor cerimônia, testemunhamos o triunfo oportunista de um Estado inglês totalitário, ancorado por meio do fundamentalismo religioso, da xenofobia e do etnocentrismo. Indo além, o filme denuncia a corrupção da Igreja e da mídia como instrumentos patentes para a alienação política do povo (a primeira legitimando o poder sacrossanto do Estado, e a segunda moldando a percepção da realidade e anulando o senso crítico das massas).

 

Entretanto, a abordagem social mais interessante, e sutil, que o filme nos expõe, é retratar a corrupção da ciência numa conjuntura política nefasta. A ciência é uma ferramenta concebida pela inteligência humana capaz de, através da investigação racional metodológica e da busca sistemática por evidências, ampliar objetivamente o nosso conhecimento da realidade material que nos cerca, e através da tecnologia permitir que possamos ampliar o nosso controle sobre a natureza. Em tese, dependendo do rigor conceitual, a tecnologia surgiu antes de fazermos ciência per si (qualquer manobra rudimentar capaz de nos conferir uma habilidade que não tínhamos, ou melhorar àquelas que nos são inerentes, pode ser entendida como uma manobra tecnológica. Nesta análise até alguns animais a possuem), entretanto, é inegável que o grau espantosamente sofisticado da tecnologia humana só pôde evoluir paralelamente ao avanço do conhecimento científico. O que, finalmente, nos traz de volta ao contexto do filme...

 

Qualquer forma de governo corrupto e anti-humano é ávido pelo poder de dominação que a tecnologia de ponta pode proporcionar, mas também é condição necessária para a sua manutenção que a exaltação dos valores científicos sejam suprimidos, afinal, fazer ciência é cultivar o “ceticismo” como perspectiva de mundo, pois é ele que, através da busca de evidência, procura tornar objetivos os nossos critérios de compreensão da realidade. E o ceticismo, mais do que uma postura a ser adotada diante da natureza, como eu frisei, trata-se de uma perspectiva da realidade, e, portanto, pode ser estendida à virtualmente qualquer questão mundana. Logo, se o Estado permitir que as virtudes críticas do saber científico se difundam, como justificar o seu poder oligárquico, espoliativo e fraudulento? Possivelmente, através das deturpações da mídia. Talvez, por meio de fundamentos teocráticos, que se baseiam em escrituras anacrônicas de uma sociedade que se inspirou em relatos místicos. Apenas para mencionar os estratagemas clássicos.


Sendo assim, reparem que no filme o governo se apropria de modo conveniente e isolado da ciência (ou melhor, apenas do “saber científico”), como forma de obter através da tecnologia de ponta um artifício de dominação: a cura do vírus letal que ameaçava a humanidade. Tendo em mãos o logro que lhe enriqueceu e o colocou no pódio, o governo tratou de repelir a ciência novamente ao seu ostracismo, e claro, tratou de manter fortes a religião e a mídia, para reforçarem ainda mais as bases do seu poder. Para contextualizar esta análise, recapitularei a seguir a evolução dos fatos que atingiram o cenário político da história, além da tática de dominação do Governo totalitário retratado na película.


Os EUA - depreende-se - eram a maior potência econômica e política mundial de sua época, quando uma guerra civil e a iminente ameaça de uma epidemia viral desestabilizaram a sua hegemonia política, ensejando a abertura para que outros governos pudessem ousar tomar o seu lugar. Assim, no Reino Unido, Adam Suttler, membro extremista e líder do partido conservador, juntamente com a sua cúpula, travaram um plano maligno de serem alçados ao poder com apoio popular massivo. Então, como campanha política, lançaram um projeto que visava a saúde e proteção nacional, inclusive supervisionado por um representante corrupto dos direitos humanos. E para isso, foram capturados inimigos ideológicos do partido para servirem de cobaia nos experimentos que objetivavam encontrar a cura para o vírus emergente, não com intenções nobres e sim para servir futuramente como arma política. Desta forma, com a posse da cura (que garante um vultoso ganho de dinheiro para o laboratório no mercado de ações, em que os líderes do partido eram os principais acionistas), destroem as instalações do projeto de pesquisa que poderiam incriminá-los. Em seguida, utilizam o vírus como arma biológica que justifique a onda de atentados contra a nação, supostamente cometidos pelos seus opositores ideológicos. Instaurado o caos social, são eleitos com grande apelo popular como a única solução para o país, e logo depois renovam a confiança do povo através da confirmação de suas expectativas, pois tão logo se elegem é encontrada a cura para o vírus, e os “ataques terroristas” cessam. Reconhecem estarem sendo tão bem sucedidos que atribuem o seu triunfo à benção divina, além das pragas destrutivas aos norte americanos como retaliação divina ao “ateísmo crescente” desta nação. 


Estabelecido o panorama político que norteia o enredo, nos resta saber, quem é V? Ok, segundo ele próprio: “’quem’, é uma das formas da função de “quê” e o que sou é um mascarado”. Então por que V pode ter surgido? Em outra passagem ele diz “o que foi feito comigo me criou” e correlaciona a terceira lei de Newton com um contexto social, sugerindo que os seus métodos violentos seriam apenas um reflexo da monstruosidade a que foi submetido, então ele seria a implacável “reação da natureza” às atrocidades cometidas pelo governo contra o seu povo. E por que justamente Guy Fawkes? Esse é um bom questionamento, afinal, o personagem histórico lutava por uma causa católica contra o Rei protestante Jaime I (o que não é explorado na introdução), diferente de V, que tratava-se de um revolucionário com tendências anarquistas, por tanto, embora o herói tenha se inspirado simbolicamente em Fawkes, não havia paridade ideológica entre eles... Ainda não obtivemos nenhuma respota relevante.


Então, reformulando a pergunta: diante de tantas figuras históricas com ideais nobres (sendo coerente, V poderia escolher inspirar-se em um anarquista), por que eleger exatamente Guy Fawkes? Vejamos, além de um homem obstinado pela luta de sua causa (viveu, matou e morreu em nome dela), V também nutria um princípio, que pode ser vislumbrado em duas frases proferidas por ele: “eu, assim como Deus, não jogo dados e não creio em coincidências” e “não existem coincidências, apenas a ilusão de que existem”. É com base nisso que ele procura aceitar os fatos da maneira que se apresentam. E na sua perspectiva, haveria algum significado inescrutável, independente da mera coincidência, quanto ao fato de ele ter sobrevivido à explosão de Larkhill no dia 5 de novembro. Logo, ele tratou de justificar para si mesmo, e assim, inspirar simbolicamente a sua luta nos planos da “Conspiração da Pólvora” e, por extensão, na figura de Guy Fawkes (que apesar de não ter sido o líder, foi o ícone do movimento).  E reparem como a rima popular criada em alusão à data, (“Lembrai, lembrai, o cinco de novembro / A pólvora, a traição e o ardil; por isso não vejo porque esquecer; / uma traição de pólvora tão vil") embora empregada para denegrir a conspiração, poderia ser interpretada por V da seguinte forma: lembre-se do cinco de novembro, o dia em que sobreviveu à pólvora (metonímia para o incêndio) e a traição de seu governo (que prendeu, torturou e matou pessoas inocentes); por isso não vejo razão para esquecer uma traição de pólvora tão vil (o incêndio em Larkhill como tentativa de eliminar os vestígios que incriminariam o Partido).


Desta forma, talvez ainda reste mais um questionamento pertinente, afinal: quem era o homem por trás da máscara? Opa, essa pergunta também foi respondida no filme, V alega não ser seu, de fato, o rosto por trás da máscara, assim como os músculos embaixo dele e os ossos por debaixo deles. Assim, veremos que para nos desvencilharmos mais uma vez da retórica elegante de V, seremos obrigados a reformular a pergunta: Quem era o homem que ficou preso na cela número cinco de Larkhill? A partir daqui podemos notar que, em vez de pertinente, este questionamento não passa de uma vã curiosidade. Ora, o homem que ele havia sido não existe mais, aquele homem fora torturado e desfigurado pelo fogo, após sobreviver percebeu-se sem amparo político, social ou afetivo; porém, como efeito colateral das experiências, acabou descobrindo em si habilidades sobre humanas (basicamente agilidade e grande resistência física), no entanto, também carregava o fardo de saber que foi a cobaia chave para a prosperidade do experimento. E teria sido daí que a natureza se encarregou de transformá-lo na “força oposta” ao governo totalitário emergente, pois ele tinha os requisitos que invariavelmente eram necessários para convertê-lo no que ele deveria ser, sendo estes: inimigo mortal do governo, sede de vingança, grande inteligência e erudição (para lidar com os problemas operacionais com maestria), indômito o suficiente para não temer a  morte e, finalmente, não ter ambições políticas pelo poder. Isto é, a própria conjuntura em que ele estava imerso tratou de moldar a sua persona heroica. Numa alegoria chave, temos a cena em que V se reporta à figura da Justiça (antes de explodi-la!) em seu monólogo, e por mais que o seu discurso tenha um caráter romântico e soe aparentemente indulgente, simbolicamente V faz o papel de Nêmesis, que na mitologia seria responsável por punir as desmesuras da Natureza, sendo referida como agente da vingança dos deuses (dependendo da versão mitológica pode ser concebida como irmã de criação da deusa Têmis. Sendo esta a defensora das leis dos homens – e também mãe de Dice, a Justiça). 


Por coincidência (ou não), no “5 de novembro” que seria o prelúdio de suas ações, V se depara com Evey (“e’V’ey” como ele faz questão de salientar), uma pessoa que era quase tão vítima quanto ele, mas que se deixou domesticar pelo sistema. Entretanto, V não encarou isto como uma “coincidência”, vislumbrou em Evey a pessoa certa para ele compartilhar as suas motivações e, de alguma forma que nem ele sabia exatamente como seria, tocar o seu legado a diante. Só que para isso ele teria desafios pela frente: dissuadir a mente covarde e acomodada da garota e fazê-la não ter medo da morte, em outras palavras, fazê-la descobrir o amor fati (aqui, sobretudo em sua concepção nietzschiana). O que nos traz ao final do segundo ato, em que V faz uso de um embuste para que Evey pudesse entrar em contato de forma segura com a experiência pessoal transformadora pelo qual ele passou. O que nos remete ao caráter artístico de seu plano, por fazer uso de “uma mentira para revelar uma verdade”. Além disso, é interessante percebermos as distintas metáforas visuais que são usadas para ilustrar a transformação que ambos os personagens passaram através do sofrimento, seguida pela aceitação do seu destino e o exorcismo do seu passado. V passou por esta transformação de forma verdadeiramente cruel, e que, portanto, lhe deixaram marcas psicológicas indeléveis; por isso a sua liberdade é marcada pelo fogo, que embora limpe os vestígios do passado, também deixa cicatrizes no seu corpo. Enquanto que Evey, por sua vez, tendo passado por uma experiência mais branda e curta, não se expôs o suficiente a ponto de arcar com o aspecto deletério desta transformação; por isso a sua liberdade é marcada pela água da chuva, que, assim como o fogo, também purifica o espírito e limpa o passado, porém de modo seguro, inócuo. Além do mais, Evey também foi importante para V a partir do momento que o permitiu fazer breve contato com o seu lado genuinamente humano (aquele que há tanto tempo era encarado como morto), permitindo que ele se apaixonasse e se sentisse querido como homem, e não apenas como símbolo. 


Por fim, alguns questionam o louvor concedido pelo público a um “anti-herói” de inclinação moral duvidosa e com forte apelo anarquista. Inicialmente, sabemos que aqueles que tentam denegrir insistentemente a personagem e suas ações, tratam-se, sobretudo, de membros oficiais do establishment de nossa sociedade. Assim, podemos perceber que os valores morais de V são baseados em um senso de justiça implacável, destituído de hipocrisia. É claro que uma sociedade pacífica e honesta é desejada por todos, porém, paradoxalmente, se quisermos chegar lá, partindo da sociedade corrupta e violenta em que vivemos, a impunidade (seja por corrupção ou ingenuidade ideológica) será apenas um perpetuador da violência e das desigualdades sociais. Entretanto, o problema não está no dilema moral entre punir ou não um facínora, e sim na falta de imparcialidade da justiça na hora de estabelecer com segurança àqueles que o são, e puni-los como tal. E por isso, na ausência de justiça no estado totalitário, V trata de explodir a emblemática representação da deusa Têmis (ou “Dice”, como discuti acima) no alto do Old Baley, e após bani-la do seu cargo na sociedade londrina, trata de acumular as funções de promotor, testemunha de acusação, juiz e carrasco.

  

Quanto ao outro ponto da discussão, V pode sim ser considerado um “anarquista”, inclusive existe uma implícita sugestão para isso na arte de conceito do seu emblema (a letra “v” estilizada dentro de um círculo é quase uma imagem invertida do tradicional símbolo anarquista, faltando apenas um traço no meio da consoante para alterá-la por completo). No entanto, veremos que apesar de extremamente erudito, V não se dá o trabalho de justificar suas ações evocando citações de teóricos do movimento, e nem sequer sugerindo como seria de fato esta sociedade legada pela sua vingança, o que nos faz perceber que o herói pode ser designado como “anarquista” não por uma definição rigorosa, e nem por assim se auto intitular, mas apenas por semelhança ideológica vislumbrada mais em seus atos do que em seu discurso. Percebemos que o seu interesse não era influenciar as vicissitudes políticas do país, e sim destruir a ordem vigente por completo, na esperança que dos seus escombros pudesse emergir uma sociedade melhor. 


Por fim, em seus aspectos técnicos o filme também é primoroso: seu texto é poeticamente expositivo para a compreensão do enredo, sendo ao mesmo tempo econômico e contundente em vários momentos; implicação semelhante causada pela montagem bastante eficaz, que precisa recorrer constantemente a flash-backs que não atrapalham a fluidez da linha temporal em que estamos; o elenco é admirável, Natalie Portman está ótima como sempre, Hugo Weaving consegue transmitir toda a sua competência cênica por trás do figurino e da máscara, seja através da sua expressiva linguagem corporal, como da sua refinada cadência vocal (o que às vezes pode nos causar a ilusão de constatarmos breves flexões emocionais na expressão caricatural sardônica da máscara de Guy Fawkes), e também não podemos esquecer a eficaz composição hitleriana de John Hurt, o que me faz supor que o overacting do ator tenha sido intencional; tivemos também os discretos efeitos especiais (especialmente quando comparados à filmografia dos roteiristas/produtores) ainda assim muito eficientes - as cenas de batalha, embora lembrem bastante a qualidade do trabalho anterior dos Wachowsky, possuem elementos de originalidade, sem contar que aqui, mais do que pancadaria para entreter o público, temos ótimos e pontuais set pieces. Pergunto-me por que a dupla de irmãos responsáveis pelo fenômeno Matrix, embora tenham estado envolvidos de maneira seminal na produção e roteiro de V, perderam a chance de assinar também a direção, e assim consagrar plenamente a sua carreira com outra obra que se mostrava tão promissora, deixando a responsabilidade nas mãos de James McTeigue, um quase iniciante na função, que anteriormente só tinha trabalhado como assistente de direção (inclusive na trilogia Matrix). Tenho minhas hipóteses, mas apenas divago sobre o assunto. No entanto, o indiscutível é que são notórias as marcas estilísticas da direção dos Wachowsky (como as já referidas cenas de batalha, entre outros elementos que se confundem com atributos do roteiro).


Desta forma, apesar de sua existência tão breve (para a sociedade londrina ele se manifestou no intervalo de um ano) e sua morte prematura e premeditada, V tornou-se um dos heróis mais cativantes do cinema, seja pela acertada adaptação de um personagem de HQ, como pelas suas motivações politicamente nobres (apesar de confundir-se com vingança), assim como o fato de a sua força ser oriunda sobretudo de um enorme poder intelectual baseado em estudos eruditos - mais do que por uma ligeira mutação genética que teria aumentado sua resistência física. No fim das contas, V de vingança não deve ser encarado como um filme que motive uma rebelião anárquica e violenta contra a ordem vigente (pelo menos, por enquanto não). Mesmo assim, o filme explora como a sociedade ainda hoje pode sucumbir perante estratégias sofisticadas de dominação por um governo moderno e de aspirações totalitárias (e como esse processo incrivelmente não se distanciaria das nossas catastóficas experiências históricas). Parafraseando um dos grandes nomes da ficção-política distópica do século XX, Ray Bradbury sugere que, diferente dos temores da sociedade, a função desta literatura é raramente predizer o futuro, e sim precavê-lo.

 

Adendo I:

Sempre que possível, ao discorrer sobre um filme que seja produto da adaptação de outra mídia, procuro referenciar o trabalho original como forma de enriquecer a interpretação da obra cinematográfica, apesar, obviamente, de nunca condicionar a interpretação de uma à outra. Desta forma, talvez contrariando a expectativa de algum leitor habituado a este esquema, deliberadamente, evitei mencionar no texto a graphic novel V de Vingança, de Alan Moore, cuja história inspirou a película. Não é que tenha deixado de apreciar a HQ, o fato é que, a meu ver, a qualidade narrativa da adaptação cinematográfica foi tão superior que ofusca e suplanta a inspiração no texto original. Lógico, a essência do enredo continua sendo a mesma (mérito para Moore), entretanto, o roteiro dos Wachowsky consegue aprimorá-lo de maneira extremamente satisfatória: expandindo a dimensão dramática dos personagens, além de atribuir maior dinamismo, coerência, coesão e aprofundamento entre as diferentes sub-tramas.

 

Adendo II:

Em Junho de 2013, quando o Brasil foi agitado por uma onda de manifestações, algumas pessoas saíram às ruas com a “máscara do V de Vingança”, como forma de protestar. Imediatamente, foram censurados por algumas pessoas que precipitaram-se ao avaliar como forma de apologia à violência a atitude de adotar o símbolo de V, afinal, segundo eles: V é um terrorista, enquanto as manifestações pretendiam manter um lastro pacífico. Ou, segundo aquelas mesmas pessoas, quem se intitulasse da paz e estivesse usando uma máscara, seria um tolo incongruente.

A diferença é que na trama vivida pelo herói a violência se faz justificável, necessária e proporcional ao caráter opressivo e brutal típico de um governo totalitário - muito diferente do que foi o nosso caso. Desta forma, os manifestantes se identificam com o “argumento” e as “motivações” do personagem, não com os seus “métodos”! Do mesmo modo, Guy Fawkes, a figura histórica que inspira a persona dramática de V, não lhe exerceu total influência ideológica, uma vez que, o vigilante mascarado se baseia apenas em seus “métodos” (explodir o parlamento) e não em suas “motivações” (substituir uma monarquia parlamentar protestante por outra de caráter católico, isto é, substituir uma elite por outra).

Crônica de Edvan Brandão Jr