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O Pequeno Príncipe (The Little Prince - 2015)

 

O Pequeno Príncipe é uma das histórias mais inspiradoras e culturalmente veneradas ao longo do século XX, certamente uma das melhores combinações em prosa de fantasia poética que a literatura já idealizou, sua aprovação junto ao público é unânime, e provavelmente seja a fábula humanista e filosoficamente mais densa um dia já concebida. Porém, existe um obstáculo que ofusca o aprofundamento de sua compreensão: a maioria das pessoas que reivindicam ter conhecimento da história, leram-na, apenas, durante a tenra juventude. Recordam de alguns personagens, lembram remotamente de uma história divertida e surreal, e por fim, resumem o argumento da narrativa apenas em algumas frases consagradas, fora de contexto, e que se tornaram de domínio público. Nos últimos 70 anos, adultos empedernidos (entre eles, rabugentos “homens de negócio”) nos fizeram acreditar que a obra-prima de Antoine de Saint-Exupéry se tratava de uma inocente história de fantasia para ser comprada, presenteada, lida e contada para crianças. Fizeram isto por falta de imaginação e motivados pelo lucro fácil, afinal, para os olhos insensíveis de um adulto bronco, indubitavelmente, esta é uma história infantil. Tolos e de mentalidade obtusa, como sempre, não poderiam estar mais enganados...

 

Afinal, O Pequeno Príncipe acoberta sob suas páginas um genuíno tratado de filosofia existencialista, atemporal, criptografado poeticamente (por isso, “invisível aos olhos”). Capaz, unicamente, de ser acessado por indivíduos que tenham acumulado uma pequena amostra das agruras da vivência de uma vida adulta, sem nunca abandonar a sensibilidade, imaginação e curiosidade inerentes à fase espirituosa e imaculada da infância. Em contrapartida, vamos traindo imperceptivelmente o valor inato destas virtudes, em prol da assimilação do modo sofisticado e egoísta da vida de um adulto-comum. Desta forma, tragicamente desprezamos as ferramentas que estão a nosso dispor para o usufruto de uma vida plena, isto é, a revelação da base para a felicidade individual, sabedoria mundana e o respeito e generosidade interpessoal... Doravante, a discussão desta bela adaptação cinematográfica de Mark Osborne, sobretudo pela ousadia narrativa de propor uma continuação digna à versão clássica da história, nos ajudará a compreender os meandros da jornada de autodescoberta do ilustre habitante do provinciano asteroide B612.

 

Finalmente, para discorrer sobre a construção do trabalho fílmico, precisamos evidenciar o desafio da complexidade narrativa que o roteiro se impôs: contar a história clássica com a maior fidelidade possível, não desapontando ao público mais preciosista; em segundo lugar, enredar uma subtrama capaz de estabelecer rima temática com o material original, envolvendo uma garotinha simpática e inteligente, porém, precocemente corrompida pelas obrigações frenéticas da vida adulta, até conhecer o saudoso aviador (décadas após a sua grande experiência), conseguindo, ironicamente, descobrir pela primeira vez os valores da infância através da terna amizade de um idoso eremita. Então, no ato final testemunhamos a audácia da narrativa de mesclar as duas histórias paralelas, adotando a liberdade poética de propor uma versão alternativa do personagem título, já crescido, avesso à expectativa de qualquer um. Neste momento, alguns expectadores se aborreceram com o atrevimento criativo dos realizadores, onde, segundo eles, o caráter imaturo e a postura desajeitado do “Senhor Príncipe” (versão adolescente/adulto-jovem do garotinho de cabelos dourados) certamente trairia a memória e o espírito do personagem. Deste modo, o que iremos perceber no decorrer da discussão é que a desconstrução polêmica do personagem-título, embora esteja superficialmente em desacordo com aquilo que poderíamos esperar do protagonista, ainda assim, foi plenamente fiel à essência filosófica do material fonte (como veremos em frente). Deste modo, a partir de agora, proponho discutir isoladamente as duas linhas do enredo, até culminarmos no seu ponto de conjugação.

 

A história do Pequeno Príncipe que todos ansiavam para ver (a original), nos é apresentada com saudoso rigor visual: as ilustrações em aquarela de Saint-Exupéry ganham relevo e textura sobre o papel, o que marca, notavelmente, uma alteração estética na película, que deixa de ser por CGI (computação gráfica) e passa a adotar o efeito semi-artesanal do stop motion. Por tanto, desde já, a animação se preocupa em retratar com fidelidade expressionista os personagens e o espaço cênico, de acordo com o design minimalista concebido pelo autor francês.

 

Em termos narrativos, não haveria complicação para um expectador-comum enxergar o desenvolvimento da trama: o relato de um aviador que certa vez se perdera no deserto do Saara após uma pane em seu avião monomotor. Dias após o incidente, não obtendo êxito em consertar a máquina, o homem já se encontrava com poucos recursos de sobrevivência, quando repentinamente é confrontado com a aparição insólita de um garotinho, imperturbável e trajando vestes elegantes, solicitando, educada e solenemente que lhe fosse desenhado um carneiro. Deste modo, à medida que o pequeno príncipe se revelava, mais excêntrica e absurda parecia a sua história. A partir daí, é fácil para qualquer um admitir estar acompanhado um enredo infantil, pensam que a filosofia da história se encontra apenas num punhado aleatório de palavras ditas pelos personagens. Este é o engano... O Pequeno Príncipe é carregado de alegorias imagéticas pautadas em iconografia infantil, apenas com o intuito de condensar uma profunda mensagem filosófica num discurso poeticamente bem articulado, elaborado com a leveza e o tom pueril capazes de sensibilizar e atingir as virtudes inatas até então petrificadas na memória infantil mais recôndita que um dia qualquer adulto tivera.

 

Por este prisma, fazendo eco com as palavras do próprio aviador na introdução, podemos percebê-lo como um homem profundamente solitário, que vislumbra na aviação o exercício da liberdade de espírito que sempre ansiara na infância, e que, porém, fora cruelmente tolhido pelo caráter impassível dos adultos. Assim, o garoto cresceu e tratou de buscar uma ocupação que o afastasse da vigilante repreensão da sociedade, tornou-se um eremita, passou a se julgar auto-suficiente, até o dia que seu avião caiu no deserto... Com pouca esperança de sobreviver, longe de qualquer traço da civilização, vitimado pela insolação, privação de água e alimento, com o corpo e a razão enfraquecidos, seu subconsciente libertou-se dos grilhões da censura mental. Deste modo, através de uma alucinação bastante imaginativa, uma versão da criança que ele sempre quisera ser apareceu para ele no deserto, trazendo à tona, consigo, todos os conflitos mal resolvidos daquele pobre homem à beira da extinção.

 

Em primeiro lugar, a criança surge como um público capaz de reconhecer a perspicácia imaginativa de seu desenho - pela primeira vez ele pudera ter orgulho de sua arte até então mal compreendida. Portanto, automaticamente o homem percebeu necessitar da presença daquele singelo e misterioso garotinho, a priori, não porque temia a solidão e sim porque pôde se sentir importante para os olhos de alguém. A partir daí, numa troca de favores, o pequeno príncipe resolveu compartilhar com aquele generoso homem o aprendizado que acumulara em sua recente jornada.

 

A história do principezinho é uma rica alegoria da construção da individualidade e da consciência social de um “homem em formação”, ou se preferir: de uma criança. A principio, antes de necessitar de outrem, todos habitamos um espaço subjetivo e virtual, restrito e limitado à interação vulgar advinda do outro. Neste espaço, tal como o pequeno príncipe em seu planetinha, dispomos da autonomia de contemplar o pensamento e a crença que nos aprouver (tudo que afete esta confortável geografia pode ser perturbador). É por este motivo que o jovem garoto tem uma vida feliz, apesar de viver solitário num ambiente tão pequeno. Afinal, lá ele poderia se deleitar com quantos pôr-do-sol desejasse (bastando movimentar a cadeira alguns passos), a sua maior recompensa estava ao seu alcance e sob o seu controle. Também havia as suas obrigações, que basicamente consistiam em preservar o saneamento de seu território (mental), revolvendo os seus vulcões ativos (uma metáfora para a contenção dos impulsos explosivos e auto-destrutivos do homem) e extraindo pela raiz os brotos de baobás (uma erva daninha que pode simbolizar os pensamentos danosos para o equilíbrio mental). Até que finalmente chegou o momento miraculoso, onde o que parecia um broto ordinário de baobá revelou-se uma rosa bela e charmosa. A rosa simboliza a descoberta do amor, a invasão psíquica de outro sujeito em nossas mentes, deixando-nos vulneráveis ao seu capricho. Assim, sendo a flor vaidosa e mimada, depois de promover a maliciosa ideia de que era única no universo, tornou-se cada vez mais soberba e autoritária, acabou abusando do engajamento afetivo do seu jovem companheiro, deixando-o atordoado, com sentimentos ambivalentes de felicidade e tristeza. Logo, o seu planeta ficou pequeno demais para a convivência entre eles dois, e o pequeno príncipe partiu numa viagem em busca da sabedoria para lidar com o novo e imprevisível problema de conviver com outro sujeito através do amor.

 

Como já sabemos, na sua ânsia de desvendar o amor romântico, o jovem príncipe foi obrigado a visitar outros mundos (envolvendo a realidade introspectiva de diferentes sujeitos), alguns foram virtualmente receptivos, enquanto outros se revelaram impenetráveis, porém, para o bem ou para o mal, o garoto aprendeu que era possível extrair sabedoria apenas naqueles breves contatos. Junto ao “homem vaidoso”, ele pode notar o quão patético é a busca obsessiva por aceitação, assim, talvez ele próprio, príncipe, devesse futuramente regrar os caprichos mais volúveis da sua flor, para não acabar tendo que mendigar por sua aprovação. Por sua vez, na sua visita com o rei, ele percebeu o cinismo do monarca em sustentar a ideia ilusória de poder, afinal, o homem acreditava mandar em tudo que estava além do domínio de seu pequeno planeta, e assim, o jovem príncipe pode perceber que só podemos ofertar o melhor daquilo que está ao nosso alcance, pois sobre algumas coisas simplesmente não temos o controle... Até que ele chega ao planeta da criatura mais perturbada de todas: o “homem de negócios”. Este acreditava ter a posse legítima das estrelas por um principio burocrático e - o pior - por um motivo fútil: acumular as estrelas para ser rico e possuir mais estrelas. E foi deste modo, neste três planetas, que o pequeno príncipe conheceu uma parcela da miséria humana: a vaidade, a prepotência e a cobiça.

 

Chegando ao planeta Terra, o destemido garoto conhece uma serpente que tenta seduzi-lo pelo caminho pessimista da morte (oferecendo-lhe amistosamente o seu veneno), como a fuga definitiva dos problemas e a dissipação permanente do sofrimento. Inocente, o príncipe titubeia diante da proposta e decide, por ora, seguir em frente. Então, depois de muito peregrinar o garoto faz a grande descoberta de sua jornada, através da raposa descobre a amizade verdadeira e o significado do amor, seja ele romântico ou fraterno. Num determinado momento, quando se depara com um jardim repleto de rosas “idênticas” a sua, o jovem não consegue conter a sua decepção: se a sua rosa era apenas uma rosa comum entre outras mil, isto a tornaria menos especial? Seria ela digna de todo o esforço do príncipe para corteja-la? Afinal, quem sabe fosse mais fácil substituí-la por outra, talvez até mais bela e de convivência mais razoável. Ou melhor, caso ele levasse um cesto com dezenas de rosas para o seu planeta, talvez ele ficasse mais feliz do que nunca? É quando entra em ação toda a sabedoria da raposa, que o exorta a valorizar quem o cativa, isto é, quem se importa por ele e o faz se sentir especial, e a recíproca afirma que toda a energia afetiva que depositamos em alguém é o que define a sua importância para nós, é o amor que decidimos investir em alguém que o torna a criatura mais especial do mundo, de nosso mundo; critérios como vaidade, poder e riqueza apenas confundem e alienam as nossas escolhas, pois não representam o verdadeiro sentimento do indivíduo e sim um padrão de escolha pré-determinado pela sociedade. Sempre vão existir pessoas mais bonitas, ricas e influentes, cada vez mais preocupadas em satisfazer as convenções de sucesso que a sociedade estipula, em contrapartida, totalmente desinteressadas em estabelecer laços humanos genuínos. Estas pessoas não cativam e não se deixam cativar, elas apenas idolatram: a beleza, o poder, a riqueza...

 

A mensagem da raposa nos faz perceber que toda interação humana autêntica é capaz de deixar uma impressão indelével e transformadora sobre a vida de outra pessoa, o que nos faz “eternamente responsável por aqueles que cativamos”. Basta-nos perceber: foi por estar cativado pela rosa, e confuso diante dos tropeços na tentativa de fazê-la feliz, que o príncipe sentiu a necessidade de abandonar o seu pequeno mundo e partir em busca de sabedoria, pois, caso sua companheira não houvesse lhe inspirado a necessidade pungente de amar, provavelmente ele estaria menos triste (pela aflição de não poder sempre agrada-la), ao mesmo tempo, tê-la amado, o fez sentir mais felicidade do que nunca imaginara ser capaz. De outro modo, o príncipe poderia facilmente ter extirpado a rosa do solo enquanto esta ainda era um broto insensível, porém, quando ele se permitiu cativar, trouxe à vida uma criatura frágil e que dependeria de seus cuidados para sobreviver.

 

O que nos traz de volta ao aviador perdido no deserto... O pequeno príncipe foi o vislumbre alucinatório do jovem que ele gostaria de ter sido: obstinado até o fim quanto as suas metas, capaz de saber reconhecer e cultivar o amor quando ele brota nas ocasiões mais adversas, enfim, ser capaz de reconhecer a amizade verdadeira até mesmo no companheiro mais inusitado (tal como uma raposa arisca). Deste modo, semelhante o relato de pessoas que sobreviveram no deserto porque seguiram em frente na perseguição de um oásis para matar sua sede, o aviador da história aqueceu o seu coração na companhia insólita de um pequeno príncipe, por isso teve esperança de vencer a solidão que o deserto representava (um reflexo doloroso e recalcado de sua vida pessoal), resgatou as virtudes da criança que um dia ele fora, aprendeu que o que mais importa na vida é a riqueza e complexidade edificante das relações humanas, e assim, descobriu que a importância de alguém não está em seu valor intrínseco, mas no afeto que despendemos a partir do momento em que nos deixamos cativar. Assim sendo, teve a determinação de consertar seu avião depois de renovar a sua esperança na humanidade, e para isso teve que amargurar o derradeiro ensinamento de seu jovem amigo: a dor de superar a perda de um ente querido (o próprio príncipe), através do amparo emocional fornecido pelo poder evocativo das memórias subjetivas que construíram juntos (o céu noturno com estrelas sorridentes).

 

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Por outro lado, o livro do Pequeno Príncipe, no filme, é abordado com o devido apelo metalinguístico, sendo retratado como uma história que tangencia o braço paralelo da narrativa.

 

A partir daí, a película estabelece um contraponto envolvendo o arco dramático do aviador no deserto, em consonância ao conflito de uma garotinha que nem sequer estava tendo a oportunidade de descobrir os valores genuínos da infância, tendo a sua vida usurpada por uma mãe super-protetora e obsessiva com a ideia de tornar a filha competitiva para a vida adulta. Sendo assim, aos poucos a jovem vai permitindo que a mensagem do livro ecoe dentro de si, descobre a importância da amizade e acaba resvalando de encontro aos valores do livre pensamento infantil, até então, ocultos para ela.

 

Enquanto isso, a figura do aviador é trabalhada como a de um pária idoso com sérios problemas de se ajustar socialmente. O que sugere o fato daquele homem nunca ter conseguido superar a perda do pequeno príncipe no deserto, aparentemente sua capacidade de estabelecer vínculo havia se atrofiado. Então, quando testemunha o recrudescimento de sua esperança na humanidade se manifestar por meio da solidariedade a sua nova vizinha mirim, o pobre velho, ao nutrir empatia, sente necessidade de cativá-la, ao mesmo tempo em que vislumbra nela a chance de ter um leitor que aprecie os rascunhos de sua obra, além, é claro, de preservar a memória de seu querido amigo. No entanto, a tensão entre os personagens aumenta à medida que a linha narrativa dos eventos no deserto se aproxima do seu ponto funesto, aumentando a ansiedade do contador de história e frustrando terrivelmente a expectativa da pequena garota, que, assim como o seu novo amigo, não parecia estar pronta para lidar com a dor da perda de alguém querido. A garota, então, regride no seu aprendizado e magoa profundamente a quem, naquele momento, ela mais temia perder... E assim, com a doença súbita do seu amigo, quando a ameaça da perda torna-se real, a garotinha recorre às duas únicas ferramentas que dispunha para superar os seus medos: o legado narrativo do pequeno príncipe, e a sua própria imaginação. Deste modo, ela propõe uma continuação ousada para a história, mesclando elementos originais do livro com a sua própria idiossincrasia.

 

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Assim sendo, o pequeno príncipe torna-se para a garotinha o mesmo fenômeno que fora para o aviador que o concebeu: um arquétipo. Isto é, uma representação simbólica e corporificada de ideias e pensamentos abstratos; neste caso, os seus conflitos mais íntimos. Portanto, não devemos estranhar que ele se apresente como um adolescente adentrando na vida adulta, um jovem que sucumbira diante da pressão de servir aos caprichos de uma sociedade materialista e humanamente estéril. Desta forma, a pequena garota resolve honrar os ensinamentos de seu amigo ancião, aplicando-os para ajudar a si própria, esforçando-se para combater a fraqueza moral do “senhor Príncipe”. Por último, depois de ajudar o seu mais novo amigo a regressar para o lar, ela precisa testemunhar a maturidade do príncipe para lidar com a perda de sua inestimável rosa. Assim, além de auto-afirmar a sua capacidade de desafiar sobranceiramente a futilidade e alienação dos adultos, a menina se fortalece diante da devastadora possibilidade de perder o aviador.

 

A polêmica entorno do filme reside exatamente no tratamento dado pelo roteiro ao príncipe, no nível do terceiro ato, na ocasião da pretensa continuação da história original. Muitos leitores do livro julgaram o filme iconoclasta neste ponto, o roteiro, dizem eles, teria traído a natureza do personagem. O aborrecimento destes expectadores/leitores é compreensível, porém, rigorosamente, não se justifica. Afinal, eles não percebem estarem eles mesmos traindo o material fonte. O Pequeno Príncipe é muito mais um tratado de filosofia do que um conto prosaico, a tênue linha narrativa da história serve para ilustrar um discurso denso e profundo, existencialista até, sobre a vida. A história envolvendo o globo-metrópole, o planeta dominado pelo “homem de negócios”, não trai a natureza do pequeno príncipe, apenas desloca a sua persona dramática para a garotinha, que passa a se tornar a linha mestra da narrativa. O livro de Exupéry contem uma essência incorruptível, e que em momento algum é contrariado. Basta pensarmos que o personagem do principezinho possui uma natureza etérea, não é a toa que na história original ele abandona o seu corpo e alega continuar existindo a posteriori, isto porque o mesmo representa sabedoria pura, e a garotinha francesa, naquele momento, representa nada mais do que a encarnação desta sabedoria. Mark Osborne e seus roteiristas recrutaram o caráter imaginativo que a história original celebra. Embora o âmago da história possa parecer diferente aos olhos de desavisados, o arco dramático dos personagens é essencialmente o mesmo que conhecemos. Analisando o livro em sua integralidade, percebemos como o enredo é simples e curto, o estofamento da obra é puramente intelectual e imaginativo. Devemos atentar que o personagem principal da história é o próprio aviador, o homem por trás da fábula. Ambos, homem e príncipe, se confundem. A partir disto, o filme explora a dificuldade em cultivar tanta sabedoria acumulada, junto a uma sociedade culturalmente inóspita para o desabrochar da felicidade individual e do bem estar coletivo. O aviador teve dificuldade para se readequar. Caso o pequeno príncipe ficasse preso em nosso mundo por uma década, oprimido por nossa atmosfera burocrática e embrutecedora, sob condição servil, privado da liberdade de seu planeta e desprovido do aconchego de sua flor, para não enlouquecer, talvez fosse mais fácil negar quem ele fora, como forma de se proteger do sofrimento mediante a crueldade das limitações impostas.

 

Deste modo, se o livro nos ensina que todos podemos lutar para resgatar os valores humanos perdidos na infância; o filme, no seu último ato, reflete uma mensagem subjacente, consequente a primeira: o alerta de que qualquer um de nós, sob pressão social, está sujeito a sucumbir perante as perversões da vida adulta, correndo o risco de esquecer até mesmo quem é, apenas para se tornar o que a sociedade gostaria que fôssemos, tudo pela ânsia de se adequar. Porém, a partir do momento que conquistamos um amor ou cativamos uma amizade verdadeira, sabendo cultivá-la com desvelo, o mundo inteiro ganha outro significado, torna-se mais belo e aprazível e você sente a necessidade real de torna-lo um lugar melhor, para ser compartilhado com quem você ama.

 

Crônica de Edvan Brandão Jr