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Mr. Nobody

(2009 - Jaco Van Dormael)
 

Instigante, misterioso e intelectualmente sedutor. Mr Nobody é um filme originalmente "culto", pois além de ser "cultuado" por um seleto grupo de fãs, trata-se de uma obra pensada e executada com o intuito de nos instruir, ou, no mínimo, nos conduzir a uma pertinente e factual reflexão de vida.  Pois é assim, de maneira soberba, que o cineasta belga Jaco Van Dormael nos apresenta (dirigindo um roteiro de autoria própria) o seu protagonista: Nemo Nobody, um homem com 118 anos de idade, inserido numa sociedade futurista na qual os humanos aparentemente vivem para sempre e o sexo é algo obsoleto. Neste contexto inusitado, Nemo é encarado como uma espécie de celebridade exótica por se tratar do último mortal vivo, e notoriamente o único humano capaz de envelhecer. Logo, o venerável ancião, percebe-se como astro de um reality show que acompanha em tempo integral cada nuance do seu processo de envelhecimento. Além do mais, como se não bastasse a enorme inconveniência de ter sua privacidade violada de forma permanente, Nemo tem que lidar com a aflição de não conseguir organizar de forma coesa a sua memória, ficando sem saber - por exemplo - como se tornou o último homem de sua geração. E curiosamente ao tentar relatar a sua vida de modo cronologicamente linear, percebe-se narrando traços autobiográficos virtualmente incompatíveis entre si. Sendo que este mosaico de lembranças, adequadamente organizado, daria origem a diversas alternativas de vida paralelas, engendradas a partir de uma escolha fundamental: após o divórcio de seus pais, Nemo (aos nove anos) teria que escolher com qual deles ficar.

 

Após a familiaridade com o enredo, naturalmente iremos perceber que a película nos conduzirá através das reminiscências do personagem principal, desde a sua mais remota infância, até os momentos mais críticos de sua vida, onde terá que fazer escolhas decisivas para o seu futuro (se ficará com a mãe ou com o pai, a garota com quem irá se casar)... No entanto, o grande transtorno que a história inflige sobre o expectador é o desconhecimento absoluto de qual daquelas versões da realidade se mostrará de fato como a verdadeira, e ao término da projeção muitos sequer acreditam poderem opinar com segurança a respeito. Entretanto, se nos deixarmos seduzir estritamente por esta análise (realidade inescrutável), corremos o risco de inadvertidamente negligenciarmos a proposta central do filme: conscientizarmo-nos do quão fabuloso e radicalmente significativo é a influência de nossas escolhas mais pontuais, capazes de alterar diametralmente o curso de nossa existência, haja vista que, uma escolha realizada na vida (traduzida ao mundo real por uma simples atitude perante uma contingência), por mais trivial que seja, embora contemplada isoladamente possa parecer banal, na verdade, encarada por uma perspectiva causal, pode repercutir em nossas vidas para sempre. E a extensão desta proposta apresenta-se ainda mais audaciosa, ao questionar: até que ponto, de fato, temos plena autonomia em nossas escolhas? Levando-se em conta não sermos capazes de mensurar - em nossas vidas - as influências insondáveis de eventos que nos são completamente alheios e que, no entanto, por si só, através de uma “ordem” essencialmente aleatória, podem ser capazes de alterar drasticamente as nossas vicissitudes... E para sustentar esta proposta, o cineasta lançará mão do seu estratégico elemento subsidiário: a cena inicial do pombo, ingenuamente mantido refém na gaiola de Skinner.

 

Logo no início, é impossível deixarmos de desenvolver uma enorme empatia, ansiedade ou no mínimo uma grande curiosidade em saber se o obstinado pombo terá êxito em sua meticulosa tarefa de usar um pequeno bloco de madeira como degrau até um fruto pendurado a sua espera. Esta pequena introdução, que acompanha os créditos do filme, ainda não é a cena de enorme potencial reflexivo e subsidiário a qual me referi anteriormente. Apesar disso, revelará ter uma importante função: não apenas nos entreter com a impressionante demonstração de inteligência do animal, mas principalmente nos familiarizar com o contexto em que ele está inserido - que será oportunamente mais bem explorado na cena seguinte.

 

A experiência da gaiola de Skinner - ilustrada inicialmente no filme - é um método clássico de legitimar os alicerces da psicologia comportamental, baseada fundamentalmente na premissa de que a principal forma de aprendizagem e doutrinação se faz através do condicionamento (operante) de comportamentos pré-selecionados (estímulos discriminativos). Sendo assim, para entendermos melhor a ideia subsequente da “superstição do pombo”, precisamos analisar didaticamente a maneira na qual a experiência é praticada com um rato de laboratório: o animal é inserido numa gaiola especialmente projetada com um mecanismo simples de recompensa imediata, composto por uma pequena barra que ao ser acionada ativará automaticamente um mecanismo que lançará uma pelota de alimento na gaiola, assim, reforçando o animal a emitir novamente a mesma ação. O problema é que o ratinho não percebe de imediato o que proporcionou a sua saciedade, ele nem sequer associa que aquele alimento é a recompensa de um comportamento seu; de início, ele pode até mesmo “acreditar” que aquilo foi um evento aleatório. Com o tempo, motivado pela fome, o animal passa a vasculhar metodicamente cada canto da gaiola, até mais uma vez resvalar sobre a barra que lhe retribui com o alimento. É então, que num determinado instante, a cobaia irá associar que o simples ato dele ter estimulado aquela barra faz com que, instantaneamente, ele seja alimentado. Sendo assim, o rato passará a acreditar firmemente na ideia de ser soberano em suas decisões e, por tanto, poderá saciar a fome a seu bel prazer. Então, chegará o momento em que o experimentador deliberadamente irá alterar a frequência de batidas na barra, para que o alimento seja oferecido. E a partir daí, de início, o rato irá estranhar o fato de a barra não estar respondendo como antes ao seu estímulo original (uma batida, seguida de uma pelota de alimento). Em seguida, muito naturalmente, o pequeno animal continuará a bater na barra de forma insistente, até descobrir que agora, esta, necessitará não mais de apenas uma batida (e sim três, por exemplo). Desta forma, mais uma vez a nossa pobre cobaia acredita ter tomado o controle da situação (já que agora irá bater as três vezes necessárias), e o mais curioso de se notar é como o animal crê seguramente na ideia de que ele, através de suas escolhas, é capaz de ter o domínio da situação, sem nunca se dar conta de que na verdade todas as suas escolhas estão diretamente subordinadas - convenientemente - à decisão do experimentador. Mais tarde isto o perturbará, ele não imagina que está sendo vítima dos caprichos de um cientista, afinal, cada vez que ele parece dominar o ambiente, as normas são arbitrariamente modificadas. Até que chegará o momento que o cientista, para estender o valor da experiência até os seus limites, decidirá não recompensar o ratinho, apesar de toda e qualquer variante comportamental que ele venha expressar, somente para analisar sua reação de desespero e frustração após o total desprezo aplicado ao animal. Enfim, em sua derradeira participação no experimento, a pequena cobaia tende entregar-se a um ataque histérico (manifestando comportamentos anômalos como autoflagelação, urinar e defecar copiosamente...), por conta da subversão dos princípios que outrora validavam a natureza do experimento.

 

Com base na explanação acima, acerca do padrão experimental genérico da gaiola de Skinner, finalmente podemos aplicar esta análise sobre a (segunda) cena introdutória do filme - em que a cobaia é o simpático pombo. E por último, extrairmos a interpretação que irá permear todo o eixo narrativo e filosófico do filme, valendo-se, portanto, como moldura conceitual para o argumento do roteiro.

 

No filme, o gracioso pombo percebe-se em apuros ao encontrar-se estranhamente inserido naquele inabitual compartimento. Felizmente, por ser um animal astuto, ele consegue adaptar-se às normas do experimento e, de forma muito eficaz, cada bicada sua, aplicada numa pequena plataforma, abrirá por alguns segundos a portinhola que dará acesso ao alimento. No entanto, para o seu enorme desgosto, quando o tempo da portinhola é regulado para cada 20 segundos, o mecanismo da gaiola deixará de responder fielmente ao estímulo original da pressão na barra, de tal forma que este tempo não será satisfatório para sua recompensa. O animal, agora transtornado, supostamente pergunta-se “o que fiz para merecer isso?”, manifestando toda sua consternação por conta da violação das normas que regiam a gaiola. É a partir daí que, por uma série de possíveis comportamentos típicos de um repentino estado de ansiedade, o pombo passará a bater freneticamente as suas asas. Assim, quando as normas da gaiola, de forma conveniente, retornarem ao normal, o pombo irá se convencer que o bater de suas asas determinou o novo padrão favorável à sua alimentação, condicionado (na acepção mais técnica da palavra) a acreditar que agora não mais uma ação dirigida (pressionar a plataforma) seria responsável pelo seu sucesso, e sim um comportamento tipicamente inato (o bater das asas). E assim, invariavelmente, o animal torna-se inclinado a acreditar que um comportamento corriqueiro, antes inócuo e banal, agora pode levá-lo a obter êxito naquele lugar. Logo, a “superstição do pombo” está formalmente instalada. Levando-se em conta que o termo “superstição” está apropriadamente utilizado, pois o fato do animal bater as asas não determina fundamentalmente a causa da abertura da portinhola, mas sim, satisfaz o critério pré-estabelecido por um experimentador alheio às vontades do bicho. E o mais interessante é que, por conta de sua limitação intelectual, o animal nunca suspeitará porque tudo isso está acontecendo com ele...

 

E para vincular toda esta ideia ao enredo? Simples. Basta substituirmos o pombo pelo animal homem; e as contingências insondáveis que ocorrem na gaiola, adequarmos à vida em sua plenitude, quanto às várias maneiras inescrutáveis que a natureza e suas situações ocasionais, essencialmente distantes, são capazes de alterar decisivamente o curso de nossa existência. E por não termos consciência da forma que este “padrão aleatório” age em nossas vidas, nos predispomos a crer na soberania de nossas decisões, o que na verdade revela-se como uma superstição de nossa parte, pois as opções que a vida nos oferece na realidade constituem-se como o produto de eventualidades cumulativas que nunca seremos capazes de ponderar. E por mais desconcertante que seja admitir, até mesmo as escolhas que apontamos, mediante as opções que nos foram dadas, também estão sujeitas à influências obscuras. E então, por uma questão pragmática, exaltamos a natureza supersticiosa desta nossa pseudo-autonomia, e convencemo-nos da confortável ilusão de termos autoridade absoluta em nossas vidas. Mas é claro, quando as opções que nos foram apresentadas não se mostram vantajosas, e nossas escolhas revelam-se evidentemente erradas, ao sentirmos que perdemos o controle das variáveis, assim como o pombo, ficamos sem entender o que está acontecendo, e num momento de fraqueza nos flagramos perguntando “o que fiz para merecer isso?”... Já no filme, não é por coincidência que estas também são as primeiras palavras de Nemo ao ser apresentado a nós - quando este se achava inerte numa gaveta de necrotério.

 

Para esboçar sua premissa, o diretor inicia uma enorme sequência criativa visando ilustrar como o acaso atua sistematicamente na vida do personagem. Tudo inicia com a referência "científica” do pai de Nemo, ao mencionar a “teoria do caos” (simplificadamente ilustrada como o fato do bater de asas de uma borboleta supostamente poder desencadear um furacão no outro lado do mundo) como responsável pela conspiração de eventos que proporcionaram o seu primeiro encontro com a esposa. E é justamente dessa forma que ele nos apresenta uma simples borboleta pousada numa folha de um jardim remoto, assustada pela súbita aproximação de um floricultor de traços orientais (em alusão ao “outro lado do mundo”), a pequena borboleta levanta vôo graciosamente, causando uma sucessão de pequenos eventos climáticos que de forma cumulativa se amplificavam, de modo que, nos E.U.A,  o resultado destas variações climáticas, de algum jeito, alterou a trajetória de uma folha na natureza, que ao ser levada pelo vento, repousou suavemente numa calçada, no exato momento que o pai de Nemo está atravessando, fazendo com que ele escorregue e caia, no mesmo instante que a sua futura esposa estaria prestes a cruzar o seu caminho na calçada. E a mulher, por ser bondosa, se compadeceu diante do ocorrido, e foi oferecer ajuda. Bastou isso para que eles, ao se olharem, automaticamente se apaixonassem, ficassem juntos, casassem, e a moça ficasse grávida de Nemo. Isto é, apesar de todas as peculiaridades vividas pelo casal, que poderiam impedir a realização do seu romance, tudo deu certo; no entanto, bastaria que naquele jardim remoto, um desocupado jardineiro deixasse de espantar aquela borboleta, e esta não saísse do seu lugar, para que o incidente que viabilizou o nascimento de Nemo nunca ocorresse. Até mesmo se todo este evento tivesse ocorrido naquele dia, porém, sem o sincronismo exato, a pequena folha não cairia a tempo de derrubar o homem.

 

Mais tarde, testemunhamos outras eventualidades inextricavelmente impactantes: a relação climática desencadeada por conta de um brasileiro desempregado, que ficou em casa para cozinhar um ovo, e a consequente evaporação da água da panela que foi para a atmosfera, fazendo com que dias depois começasse a cair uma chuva no momento em que Nemo olhava de relance para o papel com o número do telefone que Ana lhe dera para que eles se falassem. Repare, até mesmo o sincronismo perfeito destes eventos é determinante, pois se a chuva caísse um pouco depois, teria sido o suficiente para que a água não caísse no papel e borrasse a tinta, pois o rapaz já o teria guardado. E se, pelo contrário, a chuva tivesse caído um pouco antes, ele nem sequer iria expor a face do papel... Outro caso é quando (de acordo com uma das possibilidades) Nemo não consegue chegar até o vagão do trem onde se encontrava sua mãe, porque ele foi atrasado pelo cadarço do seu sapato que arrebentou, fazendo com que o calçado saísse do seu pé. Em seguida, temos a oportunidade de constatar a ocasião banal da negociata entre o dono da fábrica de sapatos e o fornecedor dos cadarços, que em decorrência disso agregaram ao produto um cadarço de má qualidade, que romperia com facilidade, impedindo Nemo de realizar a sua escolha de ir com a mãe (por atrasá-lo em chegar ao trem).

 

Agora, de maneira oportuna, vamos tentar desvendar o sentido da estrutura narrativa do filme. Inicialmente, temos que ter fixa a ideia de que todas as histórias que Nemo contara - enquanto um ancião de 118 anos -, na verdade, hipoteticamente nunca ocorreram. Ele apenas discorre sobre os potenciais caminhos que sua vida poderia tomar, a partir das escolhas que a vida o apresentou, e assim ele não especifica efetivamente que caminho foi escolhido, apenas traça conjecturas do desenvolvimento de sua história. Pois, parafraseando o que diz o personagem em certa ocasião: antes de fazermos uma escolha, as consequências de cada opção que acidentalmente tomarmos, virtualmente existem e não existem, ao mesmo tempo, todas são possibilidades igualmente concebíveis de ocorrer, e quando a nossa atitude é capaz de determinar umas das escolhas, automaticamente todas as outras deixam de existir (para que este conceito fique devidamente claro e bem exemplificado, basta conferir o experimento mental da parábola do gato de Schrödinger).

 

Em relação às escolhas mais sensíveis que Nemo teve de optar durante a película, nenhuma foi mais bela e significativa do que a decisão de qual candidata para viver um romance ele entregaria seu coração. Veremos o quanto é intrigante notar que cada uma das três garotas apresenta uma peculiaridade em sua maneira de alterar a vida do rapaz. E a partir desta análise que o filme nos apresenta, podemos torná-la universal, interpretando-a como algumas das diversas modalidades de se amar (em frente, veremos uma por uma). Também é válido notarmos como cada uma das pretendentes carrega em seu figurino uma cor própria, e em alguns casos, a cor também se estende à cenografia em que Nemo convive com a determinada mulher.

 

Sendo assim, iremos notar imediatamente que o grande e verdadeiro amor de Nemo é Ana (que carregará o símbolo romântico da cor vermelha), foi ela quem primeiro saltou aos olhos do garoto na infância, por exemplo, na lindíssima cena do clube de natação, onde Nemo, após sair da piscina com os outros garotos, fica escondido para reparar Ana nadando com as outras meninas - enquanto ouvimos muito apropriadamente a música “For You Precious Love”, mostrando o menino inebriado com a beleza e os trejeitos do seu primeiro amor, em seguida, como que hipnotizado, tenta repetir a performance da garota ao saltar do trampolim, e como seria de se esperar, por conta de seu estado de enlevação, executa o salto de forma totalmente desajeitada. Assim, veremos que será apenas com Ana que o rapaz - já na adolescência - será capaz de amar e ser retribuído na mesma intensidade, a ponto de usarem a frase de total comprometimento para se dirigir ao outro: “não há vida sem você!”.

 

Em seguida, seremos apresentados a uma das personagens psicologicamente mais problemáticas da história (cumprindo sua função, é claro), e que durante toda a trama é capaz de despertar a antipatia no espectador e, em vários momentos, provocar sofrimento ao protagonista. Elise - representada pela cor azul - é uma garota infeliz, mal amada, e que vive rastejando por migalhas da atenção de seu ex-namorado, Stefano. Ao vê-la numa festa pela primeira vez, Nemo observa a garota entregando-se a um ataque histérico numa tentativa estúpida de atrair os cuidados do seu ex. Depois disso, Nemo, mais por uma questão de impulso, segue a jovem até o lado de fora, e conversa com ela, apesar de sua enorme relutância, descobrindo o surgimento de uma paixão despropositada, que mais tarde iria se mostrar altamente nociva. Desde o início da relação afetada que se estabelecia debilmente entre os dois, Elise deixava expressamente claro que nunca seria capaz de amá-lo. No fim das contas, ao se casar com ela, e ter três filhos, a mulher se revelaria uma maníaca depressiva, incapaz de suportar a própria vida, e menos ainda de retribuir o sentimento do marido e dos filhos. É importante termos a clareza de que Nemo não era o problema na vida de Elise, e muito menos Stefano seria a sua solução, na verdade, a personagem era apenas uma pessoa psicologicamente desequilibrada e incapaz de ser feliz. Desta forma, a referida companheira na vida do protagonista, representou o infortúnio que qualquer indivíduo está sujeito ao se entregar a um “amor bandido”, a um estado de paixão que se perpetua de forma racionalmente insustentável, ou seja, que se mantém por motivos estritamente emocionais, e que, portanto, permite relevar a completa insensatez de se viver junto, casar e ter filhos com a pessoa errada.

 

Em outro momento, após a rejeição sofrida por Elise, veremos como Nemo conhece Jean, no mesmo local da festa, em uma ocasião diferente. No entanto, o que há de mais interessante no romance com a garota oriental (representada aqui pela cor amarela), é o que enseja o relacionamento entre os dois. Após um episódio súbito de revolta, Nemo decidirá tomar as rédeas de sua vida, num sentido amplo e absoluto, o rapaz estabelecerá metas para o seu futuro. Inicialmente, diz que se casará com a primeira garota que dançar com ele na festa, em seguida, estipula que ficará milionário, terá uma mansão, um carro conversível, uma piscina, aprenderá a nadar, terá dois filhos e, por último, não desistirá até que tenha realizado tudo isso. Finalmente, mais tarde seremos apresentados a este Nemo, o homem que supostamente teria conseguido se impor diante do acaso e que, portanto, foi capaz de reproduzir a própria vida de acordo com o que idealizou na adolescência, sem dar margem a qualquer fator de imprevisibilidade que pudesse tirá-lo de sua meta. Tudo deu certo, Nemo cumprira todas as suas promessas. No entanto, e aí temos um ponto bastante crítico, ao ver-se aparentemente realizado enquanto homem, o rapaz se mostra completamente infeliz, tentando suicídio na piscina que um dia desejou tão fervorosamente, desprezando, por não conseguir amar, a mulher que um dia prometeu a si mesmo que iria se casar. Dessa forma, isso lhe mostrou que tentar dominar as casualidades da vida, pode ser tão desastroso quanto entregar-se completamente a elas. É depois disso, que por uma decisão extremamente radical, visando imputar emoção à sua vida, Nemo opta entregar-se por inteiro ao acaso, simbolizado aqui pela moeda, que carregará a responsabilidade de dizer “sim” ou “não” a toda e qualquer proposição suscetível que ele formular dali em diante. Então, flagrando-se na linha do trem, a moeda desencoraja-o do suicídio. Chegando ao Aeroporto, e ao notar que um homem carrega uma pequena placa procurando por um tal de Mr. Jones, Nemo pergunta se, por acaso, poderia ser ele este homem? A moeda, ativamente responde que “sim”. Então, o rapaz irá se passar por um desconhecido, para mais tarde descobrir-se em apuros e fatalmente ser morto por engano numa banheira de hotel.

 

Enfim, quanto à investigação de qual versão da realidade é verdadeira, podemos partir da premissa fundamental de que a ambientação futurística não é real, como foi muito bem dito por Nemo aos 118 anos ao jovem repórter. O adorável ancião revela que tudo aquilo que eles estavam vivenciando não passava da “imaginação do arquiteto”, segundo ele, um garoto de nove anos sujeito a uma escolha impossível e cruel para sua idade (ter de escolher entre o pai ou a mãe). Desta forma, iremos perceber que na realidade Nemo é provavelmente um homem de 34 anos de idade que, ao chegar num certo momento da vida, descobriu-se infeliz, e arrependido por algumas de suas escolhas. E como era bem de seu feitio, debruçou-se num projeto literário, voltado ao exercício especulativo de como seria sua vida ao efetuar determinadas escolhas mediante opções reais que se apresentaram em seu caminho. Para isto, Nemo - o escritor nos bastidores da narrativa que nos é apresentada -, constrói dois personagens reais e ao mesmo tempo particularmente fantasiosos. Reais, por serem versões de si mesmo, e fantasiosos, por vivenciarem experiências surreais. O primeiro papel é a sua concepção pessoal de um idoso (ele próprio) que teria tido acesso a todas as alternativas viáveis que sua vida poderia tomar, por isso a confusão mental do ancião ao tentar organizar suas memórias, aceitando reproduzir apenas um mosaico de lembranças incompatíveis entre si, pois de fato ele não vivenciou nenhuma delas, por isso recebe adequadamente a alcunha de “Nobody”, “Sr. Ninguém”, o homem que nunca existiu, e que serve apenas de canal para o escritor da história conjecturar sobre sua vida com base em memórias espúrias. E a sociedade futurista em que ele se encontra ao final mostra-se completamente imaginativa, e se desmancha de acordo com a vontade do “arquiteto”. Finalmente, o segundo personagem é sua versão infantil, que através de uma experiência tipicamente espiritual, teria a suposta prerrogativa de saber como seria sua vida (por não ter sido “tocado” por um dos anjos), algo que rigorosamente irá mostrar-se irreal, um devaneio talvez. Mas a verdadeira sacada está no elo que o autor (lembrando que me refiro ao Nemo romancista) estabelece entre o idoso e a criança (referida como o “arquiteto”). Neste ponto, não há como explicarmos, apenas ilustrar de acordo com uma cena do filme: após o velho revelar a natureza imaginária daquela realidade, e mencionar a influência do “arquiteto”, como uma criança sujeita a uma escolha impossível, veremos Nemo em seguida - como criança - parado à beira do trilho, encarando de modo hesitante as duas direções possíveis a se tomar, numa nítida alusão à escolha cruel entre ficar com o pai ou a mãe. É aí, que através de um elo fantástico entre a criança e o idoso, Nemo deliberadamente opta em fazer as escolhas mais sensatas: em vez de escolher algum dos dois sentidos do trilho (a mãe ou o pai), o garoto se abstém de fazer a austera decisão, ao seguir correndo por um caminho perpendicular ao trilho do trem, e em seguida, iremos saber que este novo rastro o levará, de certa forma, até Ana, a única escolha que ele poderia fazer sem titubear.

 

Além do mais, não poderia deixar de explicitar o subsídio narrativo que o diretor/roteirista nos oferece: de que uma versão do protagonista, já adulto, está empenhado no projeto de um livro voltado a conjecturar livremente sobre os caminhos que sua vida poderia ter seguido. Numa tomada em particular, em que Elise aparece como cabeleireira, cortando o cabelo de um homem que parece ser Stefano, após terminar o serviço e receber o dinheiro, quando ela está prestes a entregar o troco, subitamente a história é interrompida, e ouve-se um barulho mecânico, a cena sofre um corte, e descobrimos que a máquina de escrever de Nemo havia completado o percurso de uma linha, e após trazê-la novamente ao início da margem do papel, e voltar a datilografar, a história novamente prossegue de onde havia sido interrompida.

 

No final da história, suponho que a inserção conceitual do “Big Crunch” tenha sido feita mais como um recurso estilístico, procurando evocar a ciência de maneira poética na obra, além de atribuí-la um final pitoresco e sugestivamente não conclusivo. Pois ao que tudo indica, no livro, assim como em nossa realidade, especula-se que o “fim” da existência seja marcado pelo fenômeno cósmico supracitado. Pois, pelo que presume a ciência (algumas correntes teóricas), diferente de uma grande implosão (como muitos imaginam), o universo sofrerá um processo físico dinamicamente reverso, em que o continuum espaço-tempo sofrerá uma regressão harmônica, e a entropia do cosmos passará por um estado de acondicionamento, não mais de dissipação. Portanto, a realidade fictícia abordada pelo livro de Nemo (ainda deve ser um pouco difícil se acostumar com esta ideia, eu sei), em vez de entrar em colapso, será uma vítima do “Big Crunch” previsto para acontecer - na narrativa - no dia 14 de fevereiro de 2092 às 14h50min.  Numa nítida sugestão de que a história do romance não tem exatamente um fim, já que, ao atingir o seu limite, ela retrocederá. E ao presenciarmos vários momentos críticos da vida de Nemo, voltando sistematicamente ao início, terminamos o filme com uma cena sutilmente redentora, ao constatarmos o ineditismo de uma experiência que o protagonista não vivera até então: a aproximação afetiva com Ana ainda na infância, o que nos delicia com a conclusão do último ato da história, que exibe ambas as crianças numa calorosa interação, sozinhos, na beira do cais.

 

Ao concluir esta longuíssima discussão sobre o filme, não posso deixar de expressar meu desapontamento por me ver obrigado a abandonar o texto, pois muitíssimas outras análises valiosas sobre a obra poderiam ainda ser feitas, mas ao comentar outras passagens da história correria o risco de ser redundante em algumas ideias já exploradas anteriormente. E apesar de tudo, a película ainda admite uma vasta possibilidade de outras interpretações originais (não necessariamente excludentes). Assim, extraordinariamente, o filme celebra a utopia que temos de conhecer, não o nosso destino, mas a consequência de nossas escolhas em longo prazo, e quem sabe nos deslumbrarmos por meio do conhecimento de como eventos aleatoriamente banais afetam de forma tão significativa o curso de nossa existência, e talvez, como nossas escolhas podem não ser nossas escolhas, e sim o resultado daquilo que fomos condicionados a aceitar.

 

Crônica de Edvan Brandão Jr