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96 Melancolia
 
(Melancholia - 2011 - Lars Von Trier)

 

Capaz de transmitir um pungente ar melancólico logo em seus segundos iniciais, Lars von Trier nos oferece não só um prólogo fabuloso para a história catastrófica que estará por vir, como também nos presenteia com uma das introduções plasticamente mais belas e emocionalmente mais  arrebatadoras dos últimos tempos no cinema. Traço recorrente em seus melhores trabalhos, mais uma vez o diretor sustenta sua trama em torno de um protagonista em franco declínio psicológico, que se abala ao entrar em conflito com a sociedade após esta revelar gradualmente o seu lado sórdido, gerando uma sensação de inquietude e inadequação para o indivíduo que outrora se sentia confortável em seu nicho social. Deste modo, é com grande maestria que, também mais uma vez, consegue reinventar uma nova maneira de contar sua história (que já transitou livremente entre: cinema experimental, musical, crítica de costumes teatralizada, thriller psicológico... e, agora, “ficção científica”). Indo além, avaliando sua filmografia e comparando o seu caráter eclético de fazer cinema, podemos salientar, como exemplo, duas estratégias com funções narrativas diametralmente opostas: em Dogville o cineasta decide preterir a paisagem de forma absoluta, ao passo que, em Anticristo a paisagem torna-se um “personagem” fundamentalmente ativo na evolução do enredo. Já neste Melancolia, von Trier compõe a natureza (terráquea) como uma figura viva, porém funesta, vulnerável e impotente, expondo em tela apenas os seus últimos estertores de vida.


A introdução nos é apresentada através de uma câmera super lenta, o que – aliado à estética da fotografia - imediatamente nos remete à sugestão de que estamos vislumbrando quadros estáticos sutilmente ganharem vida diante dos nossos olhos, o que irá nos expor a derradeira experiência de vida dos principais personagens, diante da iminência da morte de nosso planeta. Desta forma, é impossível deixarmos de nos compadecer com o desamparo sofrido por uma mãe que não tem onde se esconder, ou muito menos como se defender, ante uma ameaça tanto onipresente como implacável; e no outro extremo, somos curiosamente apresentados à outra figura dramática do filme, que muito estranhamente lida com total serenidade e distanciamento frente à aniquilação. Em paralelo, através de cortes angustiantes, vemos o planeta Melancolia se aproximar de forma ameaçadoramente solene da terra, enquanto esta, assim como seus ilustres habitantes, mostra-se impotente na presença de uma ameaça sobranceiramente inescapável. Em seguida, momentos antes da colisão, observamos o planeta azul começar a fraquejar, primeiramente através do que parece ser a perda de sua “energia vital”, representada por linhas pálidas que parecem canalizar-se em direção à Melancolia. Além desta cena, vemos também a referida “energia” fluir para fora do corpo de uma das personagens, da mesma forma que acontece com um poste elétrico mais ao fundo. É com total aflição que testemunhamos a natureza sucumbir diante da austeridade de seu algoz celestial, seja pela queda dos pássaros, assim como as folhas das árvores, até constatarmos um belo e último plano: o cavalo envergando-se, prostrado, como que em resignação diante do fim inevitável.


Como consideração final desta extensa análise introdutória, não poderia deixar de exaltar o enorme acerto do diretor ao vincular todo este encantamento visual a uma música não menos fascinante: Tristão e Isolda, de Richard Wagner. É impressionante a capacidade que esta melodia teve ao sustentar o tom melancólico deste prólogo, intencionalmente construído com o objetivo de nos capturar emocionalmente, e conferir uma impressão sutilmente majestosa diante do nosso fim. O cineasta conseguiu o admirável anacronismo de condicionar o talento artístico de Richard Wagner a compor uma música “feita sob encomenda” para seu filme. Digo isto, pois é espantoso como a referida obra do compositor alemão soa tão inextricavelmente natural e compatível ao filme, de tal forma, ela poderia muito bem se chamar “Melancolia”, a composição post mortem de Wagner para o filme homônimo de Lars von Trier.

Depois de uma apresentação primorosa, descobriremos que a película é dividida em duas partes, que recebem o nome das duas irmãs que a protagonizam. A primeira focaliza o casamento de Justine, o que de início nos desperta uma desconfiança sobre a proposta original do filme, pois a priori, estranhamente, somos apresentados a um casal aparentemente perfeito; exultantes e entusiasmados com o casamento. A família, de ambos, pareciam as mais receptivas e prestimosas possíveis: um casório generosamente oferecido com toda pompa pela irmã da noiva; um sogro carismático e ao mesmo tempo patrão exemplar; um pai carinhoso e bem humorado... Assim é idealizada a imagem da união matrimonial, um casal em plena conformidade, inseridos numa família adorável.


Mas será a partir desta atmosfera, elaborada para nos ludibriar, que Justine passará a nos revelar gradativamente toda a sua angústia e sofrimento. Num certo momento, faz referência a “fios cinza” que a mantêm presa ao chão, dificultando o seu caminhar - numa nítida alusão panorâmica de uma das cenas do prólogo em que a noiva encontra-se em situação semelhante. Aos poucos vão se desfazendo as dissimulações dos membros da família, quando veremos que, na verdade: o sogro/patrão era um canalha explorador completamente egoísta; O pai de Justine, até então um idoso gentil, mostra-se um homem insensível com as mulheres (ao tratá-las de forma genérica e superficial, por exemplo, chamando todas da festa de “Beth”), onde, por extensão, foi um homem que fez de sua esposa uma mulher ríspida e infeliz; notamos que o cunhado só patrocinou a festa por pressão de sua esposa, como uma alternativa desesperada de tentar sanar o caráter depressivo da noiva; Michael, seu marido, além de estúpido – inseguro e nada criativo ao tentar descrever minimamente a sua felicidade -, se mostra completamente impassível em face ao profundo sofrimento da esposa, insistindo em transar mesmo diante do abatimento emocional e da resistência de sua parceira.

Em seguida, o mais interessante a ser notado é a metáfora que o filme nos oferece, em ocasiões distintas, para simbolizar os dois momentos em que a noiva se apresenta para o expectador, ao revelar-nos sua fachada social e contrapô-la à sua realidade psicológica. Logo na recepção do casamento, o pai de Justine diz à filha que ela se encontrava “radiante”, como ele nunca havia presenciado antes. E numa outra situação, quando nos é revelada a “dança da morte” entre os planetas, descobrimos que Melancolia se manteve obscuro durante tanto tempo por estar escondido atrás do Sol, por isso o estado alarmante de sua aparição na órbita da terra. Portanto, a aparente felicidade de Justine, que se expunha “radiante” durante o casamento, se mostra como um anteparo entre a sua depressão e o meio social, assim como o Sol (também “radiante”) durante tanto tempo esteve eclipsando Melancolia da Terra. Desta forma, o sentimento melancólico da personagem, assim como o planeta, não tardaria a se manifestar.


A partir do segundo ato somos mais bem apresentados à outra irmã: Claire. Esta aparenta ser uma mulher de compostura, definitivamente resoluta e abnegada em ajudar a irmã diante de seu profundo estado depressivo, o que, por sinal, deixa-nos completamente aflitos ao constatarmos o grau de definhamento físico e mental em que Justine se encontra naquele momento. Claire se mostra decidida em ajudar a irmã, inclusive sujeitando-se a satisfazer seus mimos, enquanto que Justine se mostra cada vez mais indiferente aos seus esforços.


É durante esta crise depressiva da personagem que a aproximação do planeta Melancolia começa a se tornar verdadeiramente perigosa, e Claire, ao dar vazão aos seus medos, revela-se uma pessoa excessivamente temerosa e até mesmo acovardada, tendo como única garantia da sua salvação as palavras do marido, que segundo ela “é um homem que sabe das coisas” - por demonstrar algum conhecimento científico. Veremos então que à medida que o perigo e a suposta iminência da morte se aproximam, isto se revelará salutar ao estado psicológico de Justine, que então demonstrará uma inabalável segurança e conforto diante da extinção, pois segundo ela: “a terra é um lugar mal, ninguém sentirá falta dela!”. Em seguida, Justine afirma que estamos sós no universo, e procura, muito debilmente, sustentar sua alegação afirmando que de alguma forma (sobrenatural!) “sabe das coisas”, assim como acertou precisamente a contagem do pote de feijões no dia do casamento. Nesta ocasião, von Trier se aproveita para que - através de sua protagonista - tenha a autoridade de atribuir um valor ainda mais catastrófico à destruição da Terra, pois o fim do nosso planeta não iria representar apenas a extinção da natureza terráquea, e sim o fim de qualquer forma de vida em todo o Universo!


Enfim, contrariando todas as expectativas da ciência, quando a aproximação de Melancolia revela-se inexorável para os personagens (o que o diretor nos faz questão de apresentar desde o prólogo), veremos que a partir desta revelação fatídica cada personagem irá se comportar de maneira particularmente distinta. John, como um homem tipicamente racional, ao reconhecer nitidamente um erro nas estimativas da ciência, percebe que o fim será inevitável, e reconhece que não haveria como lutar, e pior ainda seria tentar amparar a sua família (pois sabia que sua esposa era mentalmente instável), sendo assim, o homem se suicida reservadamente no celeiro, onde supunha não ser encontrado. Claire, enquanto pessoa metódica e psicologicamente frágil, entra em desespero e se fixa na ideia de seguir alguma espécie de ritual inútil para amenizar a situação. Quando a irmã debocha de seu comportamento sem fundamento, Claire se entrega a outro episódio de insensatez, ao tentar desesperadamente fugir com o filho para algum lugar.


Quanto mais o perigo se intensifica, Justine se revela como a pessoa mais adequada para enfrentar esta situação, seja pelo seu desapego com a própria vida (natural de qualquer pessoa melancólica), ou até mesmo por sua aversão particular à Terra. Então, vemos a tia “durona” fazendo jus à admiração de seu sobrinho. Agora, empedernida, restabelece o controle da situação, evitando que Claire amedronte o garoto. Lançará mão do subterfúgio necessário para desviar a atenção da criança: a construção da prometida “cabana mágica” - ironicamente, apenas uma edificação extremamente frágil, composta somente por alguns galhos de árvore, descoberta, vulnerável, e armada no jardim da mansão. E no fim das contas, este acaba sendo o local que eles escolhem para permanecer durante seus últimos instantes, numa nítida alegoria ao total estado de desamparo em que se encontravam. Isto é, mesmo que tivessem um verdadeiro castelo de pedra a sua disposição, escolheram a débil cabana, pois de qualquer forma nenhuma das construções seria apropriada. Então, dentro do seu improvisado alojamento, vemos a reação final de cada personagem diante da morte: Justine encontra-se serena, por sentir-se plenamente realizada (afinal, há tempo desejava sua morte, assim como a punição de nosso planeta); a criança demonstra-se tão tranquila quanto a tia, devido a sua inocência; e Claire, por sua vez, lamenta e se desespera até o último instante.  


Sendo eficiente enquanto drama escatológico, Melancolia torna-se outro grande acerto do cineasta dinamarquês, onde novamente exibe toda sua competência ao construir uma nova crítica à sociedade, e embora seja esta a característica inescapável de seus projetos, neste último trabalho, gloriosamente consegue exercê-la - mais uma vez - com grande autenticidade e profunda inspiração artística. Em tempo, é importante salientarmos uma rima temática (cruzada com outra obra) que se estabelecerá durante a película: ainda na introdução, alternando com as imagens diegéticas do prólogo, vemos um quadro (na introdução um enquadramento de câmera, e mais tarde, literalmente, a pintura do “cenário de inverno”) que também é uma imagem bastante recorrente em Solaris, de Andrei Tarkovski, que além de mostrar-se uma homenagem direta, nos indica desde o início que a abordagem de von Trier será semelhante ao clássico do cinema soviético. Ambos são filmes de ficção científica bastante intimistas, que muito engenhosamente trabalham com a imagem ameaçadora de um planeta, capaz de induzir um catastrófico estado de perturbação psicológico em seus personagens, a fim de lançar o expectador num vórtice especulativo de nossa frágil condição humana.

 

Crônica de Edvan Brandão Jr