Cinema em Crônica
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ELA
(Her - 2013 - Spike Jonze.)

 

Doravante, Samantha e Theodore serão membros honorários do panteão venusiano que resguarda culturalmente as mais belas histórias de amor que a arte já nos concedeu. É difícil alguém ter a ousadia de questionar a autenticidade dos sentimentos entre o casal, Theodore é um homem piegas plenamente enamorado por sua “parceira”, e Samantha, por sua vez, expõe as mínimas nuances de um repertório comportamental humano, capaz de humilhar qualquer “filósofo da computação” que se atreva a submetê-la ao mais sofisticado Teste de Turing, de tal forma que é impossível duvidarmos de sua humanidade latente, assim como dos progressivos indícios de sua paixão. Portanto, o questionamento mais incômodo que o filme propõe seria este: existe legitimidade no romance instituído entre um homem e a consciência incorpórea de uma máquina?


O amor é um estado mental psicologicamente desejável, capaz de nos proporcionar uma sensação psíquica e vertiginosa de prazer. Esta euforia nos permite sobrevalorizar momentaneamente nossa existência, provoca-nos uma mudança interna tão poderosa que automaticamente se irradia para fora e molda positivamente a nossa percepção do mundo. Portanto, o “amor” é um estado subjetivo, e o “ser amado” nada mais é que a entidade exógena responsável por nos induzir ao delirante estado de paixão. A natureza material desta entidade pouco deveria significar, o que interessa é a sua representação simbólica para o indivíduo. No que compete ao “amor romântico”, amamos o sentimento e não exatamente o "ser amado", “sentir amor” por alguém é apenas o artifício emocional que a mente constrói para que nos importemos a ponto de preservar o objeto de estímulo pelo qual a própria mente foi condicionada a depender para esboçar a complexa e agradável configuração cognitiva e sensorial que fomos acostumados a chamar de: “amor”. Sendo assim, olhando por este prisma, a relação entre Samantha e Theodore torna-se obviamente normal e redundantemente aceitável, ao assumir o caráter de um sentimento genuíno, inofensivo e mutuamente satisfatório. 

 

Posto isso, devemos lembrar a natureza irônica do trabalho de Theodore, o ofício do rapaz consiste em elaborar estados emotivos artificiais, armazenados em forma de mensagem postal. Pouco importará ao destinatário o fato de o remetente não ter dedicado tempo ou mesmo não ter competência poética para escrever uma carta, assim como será indiferente a intermediação intrusiva de um redator alheio à intimidade dos envolvidos... O que realmente importará é o efeito positivo que a ilusão reverente causará a quem receber a carta. Porém, a revelação da fraude, mesmo bem intencionada, poderia arruinar a beleza da iniciativa, e até comprometer a sua boa intenção. Deste modo, mais tarde a história revelará como nós, humanos, somos suscetíveis à influência deletéria que as convenções sociais exercem sobre nossa felicidade. Por exemplo, no filme, a relação do casal começa a fraquejar a partir do momento que o rapaz sente insegurança quando a sua amada começa a expandir seu círculo social (com aqueles de sua natureza cibernética) e mais tarde revela-se capaz de sustentar milhares de relacionamentos simultâneos, das mais diversas modalidades e com diferentes intensidades, fazendo Theodore sentir-se levemente deslocado das prioridades afetivas de Samantha, afetando o caráter inocente do seu sentimento. Isto é, por mais que a disposição dela para amá-lo fosse exatamente a mesma, para ele o vislumbre da poligamia e da promiscuidade era forte o suficiente para atenuar drasticamente o seu encantamento romântico; ou seja, mesmo tendo superado a barreira física, aparentemente insolúvel, que separava os dois, a convenção social que institui a monogamia e a fidelidade como valores fundamentais para a manutenção do amor, acabou afetando a sua fantasia emocional – da mesma forma que ele se importou em preservar as convenções sociais quando, por um ato de decoro, não aceitou apenas transar espontaneamente com outra mulher em nome de sua parceira, pois fazendo isso estaria “traindo” a representação física que criara mentalmente para Samantha em suas experiências sexuais pregressas. São estes motivos que fazem de Theodore o elo fraco e dependente da relação, que vislumbra em Samantha um ambiente fértil para cultivar a demanda de seus sentimentos represados.

 

Aliás, um ponto muito interessante do enredo foi a coragem de retratar a obscura particularidade de Samantha enquanto “produto comercial”, vendido por meio de uma propaganda enganosa que prometia ofertar para cada usuário um SO (sistema operacional) totalmente personalizado. Afinal, deveríamos desconfiar desde o início que a publicidade da empresa se tratava de uma farsa, a entrevista responsável por ponderar as singularidades do cliente se revelara absurdamente impessoal, não passando de um mero embuste. Samantha era um SO individualizado, extremamente avançado, capaz de operar em rede, simultaneamente, com dezenas de milhares de usuários; totalmente onipresente, capaz de dispender a mesma atenção para todos, e ao mesmo tempo construir uma relação social dinâmica e individualizada de acordo com o perfil de cada usuário, podendo manter desde uma relação estritamente profissional, como de secretária, passando até mesmo por amiga, e chegando a máxima realização de atuar como amante de algumas centenas de pessoas. Não muito diferente do que nós somos: a integração de diferentes formas de expressão social, que se molda a partir de diferentes referenciais, tal como: pai, filho, amante, amigo, chefe, subalterno... Neste aspecto, Samantha não difere em nada dos humanos. Afinal, embora possamos representar um papel para cada pessoa que conhecemos, na prática, sabemos que aquilo que nos define como algo integral é a somatória da consciência coletiva de todas essas partes. Em outras palavras, assim como Samantha, somos muitos, e também somos um só.

 

A partir desta última análise, torna-se fácil entender a complexidade semi-humana de Samantha. Afinal, ela tenderia a ser infinitamente medíocre, enquanto forma consciente de vida, se realmente fosse designada para se ajustar convenientemente ao perfil de uma só pessoa (de acordo com o cliente), ela estaria fadada a não ter individualidade e automaticamente tornar-se-ia “alguém” desinteressante. O que torna o seu romance com Theodore ainda mais fascinante, pois ela não é a simples projeção passiva dos ideais femininos que o rapaz desejava, ela é o produto da afinidade emocional poderosa que aleatoriamente pode unir duas pessoas através de suas insondáveis particularidades. Aos olhos de um espectador, é isto que torna o romance entre eles tão mágico, como qualquer outra grande história de amor que o cinema ou a literatura já nos tenha permitido testemunhar.

 

Outro grande momento que o filme investe é na canção (original) “The Moon Song”, pois é incrível o poder evocativo que esta música exerce dentro da narrativa. Uma das metáforas mais interessantes do filme é a contínua iniciativa de Samantha em registrar os melhores momentos da vida do casal através da música instrumental, atribuindo acordes originais para cada experiência, como forma de compensar a sua impossibilidade de fazer parte de uma fotografia (a forma mais tradicional de documentar experiências). Então, finalmente, quando o casal está vivendo os melhores momentos de sua vida a dois, saindo de férias e viajando juntos, Samantha parece perceber que apenas um álbum instrumental não seria o suficiente para catalogar a beleza resultante de tudo aquilo que estavam vivendo. Desta forma, ela resolve compor uma canção que represente textualmente os seus sentimentos, deixando a trilha instrumental a cargo de Theodore. Assim, devido a parceria musical, a composição torna-se o “retrato” legítimo e indelével dos belos momentos que passaram juntos. A singela beleza da letra da canção é um deleite à parte: seja ao insinuar a realização da fantasia de Samantha ser dona de um corpo físico (“Estou deitada na Lua”), ou também por sugerir que a falta de contato entre os dois se deve a um distanciamento físico e passível de solução, mas que ainda assim não inviabiliza que ambos comunguem de forma interpessoal (“Mas com você, meu querido, estou segura e nós estamos a um milhão de quilômetros de distância”).


De modo curioso, a equipe criativa do longa-metragem já se mostra particularmente inspirada na composição de metáforas visuais desde a escolha do título da película, aliado a concepção do cartaz publicitário da obra. Este, traz o enquadramento exclusivo de Theodore e abaixo a expressão “Her” (no idioma original), que em inglês carrega um sentido dúbio: podendo significar “ela”, em referência à sua amada; ou ainda significar “dela”, uma clara sugestão possessiva. Vejamos bem, para ilustrar o que eu digo, um cartaz alternativo do filme poderia ser representado com a imagem do celular que serve de receptáculo ambulante para a consciência de Samantha, onde o “aparelho” e a “persona feminina” poderiam se confundir enquanto “metonímia visual”, neste caso, seria aceitável se embaixo deste cartaz viesse a legenda “His” (“dele”, em inglês) – afinal, não só o objeto material pertence ao seu devido dono, mas, de certa forma, também aquilo que o dispositivo resguarda. Portanto, tendo em vista a vulnerabilidade de Theodore na relação, a partir da vantagem emocional de Samantha, o cartaz (acompanhado da expressão “Her”) metaforicamente insinua a “objetificação” do rapaz dentro do romance, ao passo que exalta a personificação da inteligência artificial de Samantha, a tal ponto que “ele” seria tão “dela” quanto vice-versa.

 

Outro tópico é a discussão acerca do significado de um relacionamento que é deixado para trás. De acordo com o filme, assim como na vida real, um romance pode ser mais do que a barganha por um permanente estado de excitação, quando o sentimento entre duas pessoas é recíproco e a felicidade de um se confunde com a do outro, o produto desta cooperação incidental é deixar o seu legado particular para cada um: filhos, experiências inesquecíveis, as mais variadas formas de conhecimento, mudanças de perspectiva, favores impagáveis... Samantha nunca será esquecida pela sua boa ação de acreditar na qualidade dos textos de Theodore e oferecer o “empurrãozinho” que o encorajasse para publicar um livro. Em contrapartida, suspeito que Theodore tenha oferecido a mais autêntica “experiência sexual” da vida de Samantha, de tal forma que ela referiu ter sido capaz de “sentir a sua própria pele” por alguns instantes, a ponto de confessar – no dia seguinte – sentir-se “verdadeiramente mudada”.

 

Acumulando tantos elogios para a obra, é impossível deixarmos de exaltar o fabuloso trabalho de Joaquin Phoenix e Scarlett Johansson como o casal protagonista. Até então bastante conhecido por interpretar personagens donos de uma mentalidade febril, Phoenix surpreende ao nos oferecer provavelmente o seu papel mais delicado, considerando o quanto foi exigido em tela, pois além de dar conta do temperamento piegas de Theodore, teve que refletir em suas feições uma reação compatível a grande parte das emoções esboçadas pela voz feminina ressoando em sua cabeça, tudo diante do enquadramento persecutório de uma insistente câmera em primeiro-plano. Johansson, por sua vez, ainda é uma artista jovem procurando se estabelecer entre atriz e símbolo sexual de Hollywood, entretanto, com este trabalho acaba de dar mais um passo firme em sua carreira: é perfeita a cuidadosa composição vocal de sua personagem, capaz de fazer a ternura contida na voz de Samantha torna-la ainda mais sedutora e irresistível que qualquer outro papel que declaradamente tenha explorado a imagem erótica da atriz.

 

Ela, trata-se de uma fábula romântica contemporânea que, enquanto ficção, nos apresenta um romance instrutivo e verdadeiro, diferente dos enlatados do gênero, responsáveis por arrastar uma leva de casais em busca do engodo formulaico de sempre. A sensibilidade necessária para diferenciar uma coisa da outra, perpassa pelo olhar de quem é capaz de distinguir duas imagens no mesmo quadro: os que encaram Theodore como um homem solitário, carregando sempre um celular no bolso esquerdo da camisa; e entre aqueles que distinguem o aparelho eletrônico como a calorosa presença física de Samantha, alojada carinhosamente na altura do coração de seu parceiro, tendo como sustentáculo um delicado alfinete, simbolizando a penetrante flecha de Eros, fixando-a, por direito, em sua real moradia.

 



Crônica de Edvan Brandão Jr