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Divertida Mente (Inside Out – 2015)



Teoria da Mente pode ser entendida como a área da filosofia da ciência que se ocupa em elaborar um modelo universal, simbólico e representativo, que explique de maneira econômica e integrada toda a miríade de fenômenos envolvendo a manifestação operacional abstrata de nosso cérebro, isto é, aquilo que cada vez mais convencionamos chamar de “mente” e menos de “espírito”. Admitindo o caráter controverso desta disciplina, vamos perceber um amplo grau de liberdade poética a ser prontamente explorada junto ao esforço artístico e intelectual de compartilhar para o grande público, e especialmente para as crianças, a mínima compreensão do intrincado funcionamento da mente, a partir do seu mais rudimentar substrato de operação: as emoções. Divertida Mente, retrata o referido assunto com um ótimo respaldo teórico, além de complexidade estética e coerência narrativa, levando também em conta a leveza, o bom humor, drama e imaginação característicos da admirável reputação criativa do estúdio Pixar de animação.
 
A história acompanha os percalços cotidianos da pequena Riley, desde a sua primeira infância até tornar-se uma pré-púbere virtuosa, jovial e travessa, numa jornada pessoal de amadurecimento e autodescoberta. Por outro lado, adotando uma perspectiva “avessa”, a película aborda de maneira “divertidamente” prosaica o conflito de poder entre as cinco emoções primárias do ser humano, ambientando a consciência como uma sala de comando moderna, equipada por um painel de controle, que entre várias funções é responsável por modular a tonalidade afetiva de nossas experiências, além de influenciar nossas decisões. A partir daí, passamos a compreender melhor a dinâmica funcional entre as cinco personagens: naturalmente, o nosso favoritismo será arrebatado pelo modo exultante e vivaz da sempre sorridente, otimista e serelepe “Alegria”; ao passo que a tríade “Medo”, “Raiva” e “Nojinho” (um eufemismo para “Repulsa”, tendo em vista o público infantil) irão assumir a sua função de preciosos coadjuvantes, levando em conta a tenacidade do senso de liderança da Alegria; Em contrapartida, restará a lúgubre “Tristeza”, uma figura tímida e desajeitada, capaz de nos despertar sentimentos contraditórios de ternura, devido a sua fragilidade e inocência, até uma incomoda pontada de antipatia, por conta de sua insistência prejudicial em oferecer ajuda de modo inconsequente.
 
Levando em conta este panorama inicial do drama narrativo, alguns espectadores poderiam se precipitar em estabelecer um juízo de valor maniqueísta entre as personagens, tornando “alegria” a virtude inviolável e “tristeza” o mau a ser combatido e extirpado... No entanto, como iremos observar no desenrolar da história, o argumento da narrativa questiona a concepção de que a “tristeza” seja uma emoção maliciosa e indesejável. Pelo contrário, nos fará perceber o seu aspecto salutar e construtivo, apenas quando tivermos aptidão para compreendê-la e administra-la bem. Afinal, qualquer uma das emoções poderá ser potencialmente destrutiva para o indivíduo, caso não seja bem compreendida e administrada. Oras, apesar de assoberbada, a própria Alegria teria um enorme potencial destrutivo se não fosse constantemente auxiliada pela tríade emocional de autopreservação, que se ocupa em proteger o indivíduo do seu excesso de impetuosidade e extravagância, isto é, genericamente: a Repulsa evita a exposição ao risco, enquanto o Medo e a Raiva reconhecem o perigo iminente, de modo que o primeiro gera o comando de esquiva e o segundo a resposta de ataque, de acordo com as contingências. Deste modo, torna-se fácil entendermos como a Alegria, desamparada das emoções anteriores, tenderia, de modo letal, a colocar o indivíduo em apuros. Além disso, para desmistificarmos um pouco mais o suposto caráter puramente benfazejo e imaculado da “alegria”, basta pensarmos em termos de psicopatologia: dentro do espectro clínico do transtorno de humor bipolar (maníaco-depressivo), todos reconhecem a depressão como um “excesso de tristeza”, porém, poucos compreendem que a fase maníaca da doença representa o abuso indecoroso de “alegria” por parte do sujeito.
 
A saúde mental prevê que uma boa dose de alegria, além de desejável, é imprescindível para o bem estar e equilíbrio psicológico do indivíduo. Intuitivamente, todos cobiçam e reconhecem a importância da Alegria. Mas afinal, para compreendermos a sugestão do filme, o que justifica a função positiva da Tristeza em nossas vidas? Antes de especular sobre isso, vamos discutir brevemente sobre a teoria da gênese biológica das emoções.
 
As emoções humanas, tal como foram descritas simbolicamente pelo filme, são compartilhadas por outros animais superiores e representam estratégias evolutivas e instintivas de sobrevivência... Na sua essência, a vida é um fenômeno microscópico que reflete a disputa silenciosa entre genes que fazem cópias de si mesmo, encarcerados no interior de um núcleo, mergulhado no citoplasma de uma célula. O gene é o segmento de um composto orgânico maior chamado DNA, este último tem como propriedade elementar a replicação. A Seleção Natural, durante bilhões de anos, favoreceu a perpetuação dos genes mais aptos em fazer cópias de si mesmo. Além disso, a principal estratégia de sobrevivência da Evolução favoreceu os genes que foram capazes de se agruparem coletivamente para formar células a partir da contribuição individual de cada um, a propriedade secundária dos genes é produzir proteínas (a partir de substrato orgânico), estas, por sua vez, constituem as ferramentas do maquinário celular. Deste modo, biólogos evolucionistas costumam chamar todo ser vivo complexo (de um protozoário unicelular até um ser humano) de “máquinas de sobrevivência” construídas evolutivamente por grupos de genes, tornando-se cada vez mais complexas e competitivas para a Seleção Natural... Portanto, vamos iniciar nossa análise evolutiva das emoções, convenientemente, a partir dos seres pluricelulares mais simples (penso, por exemplo, num celenterado [p. ex.: água-viva] – os primeiros a apresentarem um sistema nervoso difuso): os genes construíram uma máquina orgânica de autoconservação, porém, só funcionaram satisfatoriamente bem àquelas que eram capazes de seguir um rígido programa relacionado à sobrevivência do organismo. A partir daí, teria surgido o conceito de “dor” e “recompensa”: todo fenômeno de potencial lesivo, que pudesse ameaçar a integridade física do organismo, quimicamente perturbava sua homeostase de modo a gerar uma resposta de retração e afastamento semelhante aquilo que chamamos de “dor”, de outro modo, estímulos positivos, como os relacionados à saciedade alimentar, eram capazes de reequilibrar a homeostase do organismo, algo quimicamente “recompensador”. Analisando um ser mais complexo, como um mamífero: notavelmente a “dor” é interpretada pelo seu sistema nervoso central como um estímulo perturbador; o seu cérebro é capaz de armazenas memórias e certas predisposições naturais a ter “Medo” (isto é, capacidade de reconhecer e evitar) aquilo que é perigoso; como o organismo em questão é fisicamente desenvolvido, ele é capaz de avaliar a necessidade do enfrentamento agressivo (Raiva) de alguma ameaça contornável; neste contexto, a “Repulsa” representa a suspeita, desconfiança e precaução de entrar em perigo, e vir a sentir dor. Finalmente, a “Alegria” pode ser encarada como o estado eufórico de recompensa química do sistema nervoso central, quando uma necessidade básica do organismo é realizada (principalmente, alimentação e sexo – ou seja, requisitos de sobrevida e reprodução)... Mas... E quanto a “Tristeza”?
 
Até este ponto da discussão, o conceito das “emoções” animais se baseia em inferências humanas, ou seja, a partir de certos padrões condicionais de resposta comportamental, deduzimos a disposição mental de uma criatura. Naturalmente, graças a razão e a autoconsciência ampliada, as emoções se manifestam de modo particularmente exuberante através do humano, devido a complexidade intrínseca de nossa mente. Sendo assim, vamos observar que a “tristeza” é uma disposição afetiva que se evidencia com mais clareza no ser humano... Agora, vamos procurar entende-la.
 
De maneira simplista, alguns podem conceber a “tristeza” como profunda ausência de “alegria”. O animal “triste”, genericamente, pode ser aquele que se apresenta apático diante da frustração de uma expectativa real. No entanto, perceberemos que a “tristeza” adquire plena valia apenas para seres dotados de razão, como nós. Sentir-se triste, na medida certa, permite ao indivíduo vivenciar um estado mental de retraimento da consciência, isto é, a sua atenção é deslocada do ambiente e se volta para a contemplação pessoal dos próprios sentimentos e ideias, permite-nos experimentar um isolamento racional capaz de provocar dor, pois representa o sofrimento intelectual da mente que trabalha em prol da solução de um problema. Em contrapartida, diferente da “tristeza”, a “alegria” distrai a nossa razão, ao passo que entorpece os sentidos, inspirando a mente a se concentrar nos estímulos que o ambiente oferece, capazes de ofertar prazer. Sendo assim, ambas as emoções precisam estar presentes em nossa vida, em conjunto elas representam o equilíbrio de uma existência enobrecedora, em que o sujeito ora é capaz de sentir grande prazer diante das vivências cotidianas, ao passo que, em outras ocasiões, estará apto para passar pela introspecção necessária para reavaliar a sua vida em pequena e larga escala, o chamado estado de “angustia existencial”, que quando pontual e transitório revela-se importantíssimo para o amadurecimento do indivíduo racional.
 
Após este preâmbulo teórico, podemos voltar para o filme e avaliar com mais propriedade o drama pessoal da protagonista mirim. Desta maneira, é com grande empatia que acompanhamos a pequena Riley experimentando a tumultuosa travessia para a adolescência, que por sua vez é a ponte entre a infância e a vida adulta. Tão logo, qualquer criança deve se acostumar com a ideia de que crescer envolve ter tolerância à frustração e se adaptar às adversidades da vida, enquanto que em algumas ocasiões a pessoa terá que renunciar à aceitação passiva e saber manifestar a sua insatisfação. Enquanto isso, apesar de notoriamente contrariada, Riley se empenhava para aceitar a terrível mudança repentina em sua vida. A Alegria, com todo o seu otimismo, quis tomar as rédeas da situação e acolher de bom grado toda contrariedade que se apresentava. No entanto, mesmo que em curto prazo o indivíduo até consiga se acomodar bem ao ambiente, ao disfarçar a sua frustração por um longo tempo, isto se tornará psicologicamente danoso. Saber lidar adequadamente com as frustrações é ser “assertivo”, o que significa: desenvolver um conjunto de habilidades cognitivas e comportamentais que permitam ao sujeito se afirmar socialmente sem desrespeitar os direitos do outro.
 
Riley estava profundamente insatisfeita, porém, não soube comunicar isto para os pais, até fingiu estar feliz para agradar enganosamente a si própria e a eles... O abuso inapropriado e contraditório da Alegria, fez com que paulatinamente esta emoção fosse perdendo força e influência. E para piorar, a garota não sabia fazer uso da referida circunspeção da Tristeza, de modo a aceitar amargamente o problema e ponderar sobre a solução. Portanto, o que lhe restou foi recorrer instintivamente às três emoções que lhe restavam, totalmente inaptas para este tipo de trabalho. Logo, a Raiva teve alguma vantagem na disputa, e a jovem passou a lidar com o seu infortúnio de maneira psicologicamente contraproducente. Arredia, parecia ter repulsa por qualquer contato social (o que quer dizer que não aceitava ajuda), o seu aborrecimento não permitia a introspecção melancólica, apenas deixava-a rabugenta. Deste modo, a ausência de reflexão racional lhe conduziu a tomar uma decisão estúpida, enganar a si mesma com a ideia estapafúrdia de que a solução estava em fugir do problema e buscar a felicidade ilusória em sua antiga cidade. Assim, é fácil imaginarmos que caso ela tivesse levado a cabo o seu projeto, quando percebesse o tamanho do seu erro, iria encontrar-se vulnerável e dominada pelo medo das consequências. Porém, felizmente o seu destino não foi trágico, Riley teve a oportunidade de se arrepender a tempo. No ônibus, sozinha e imperturbável, a garota teve um lampejo de razão que a fez perceber que as suas últimas escolhas estavam traindo a sua personalidade, permitindo que ela aceitasse o teor de sua mágoa, para então se debulhar em lágrimas mediante o alívio de trazer à consciência os sentimentos reprimidos que precisavam ser compartilhados com os pais. Toda esta catarse, enfim, revelou-se psicologicamente revigorante, permitindo que a jovem reencontra-se o equilíbrio da sua saúde mental.
 
O que acabei de relatar foi a descrição crítica das desventuras da protagonista humana. Enquanto isso, em primeiro plano, este drama reflete uma serie de adversidades no plano narrativo que ocorrem na mente turbulenta de Riley, onde a personificação das suas emoções lutam para ajuda-la. A maior tensão se mantinha entre a postura controladora da Alegria e a ânsia colaborativa da Tristeza. O arco-narrativo acompanha a evolução do trabalho em equipe entre ambas as emoções. Inicialmente, a Alegria subestima a Tristeza, enquanto esta se mostra sempre insubordinada. Este conflito acidentalmente acaba fazendo com que elas se percam no amplo território da mente, este estado de inoperância emocional seletiva perturba a disposição afetiva da jovem Riley. Deste modo, o isolamento, além de permitir que Alegria e Tristeza se conheçam melhor, amadurece o senso de liderança da primeira de modo que esta reconheça a importância de sua inseparável companheira (depois de avaliar cuidadosamente o conteúdo de uma das memórias-base que carregava consigo), que por sua vez, a esta altura, estava passando por uma crise autodepreciativa (mesmo depois de mostrar o seu valor ao ajudar outro personagem num momento de aflição). Finalmente, quando conseguem retornar à sala de comando, Alegria demonstra humildade ao ceder autoridade para a Tristeza lidar com o problema, evocando as memórias-base através de um filtro melancólico capaz de sensibilizar Riley a reincorpora-las à luz de sua consciência, aceitar a sua mágoa e lidar racionalmente com a dificuldade: procurar os pais e desabafar os sentimentos represados. Deste modo, dentro do universo da narrativa, não é precisamente correto dizermos que a realidade mental (dentro) influenciou a realidade física (fora), tampouco o contrário. A influência foi recíproca, ambas as realidades se tangenciavam mutuamente.
 
Em tempo, para discutirmos o mérito do cineasta Pete Docter em condessar um argumento tão complexo numa história infantil, não podemos ignorar o estupendo trabalho do design de produção, capaz de atribuir uma forte identidade congruente a cada uma das emoções personificadas, com especial zelo na construção da Tristeza como uma gorduchinha tímida, de cabelo escorrido e penteado desalinhado, parecendo querer sempre isolar-se por trás de seus óculos de armação gigante ou enfurnando a cabeça na volumosa gola rolê de seu suéter; meiga e sensível a ponto de ser impossível para qualquer um sentir-se verdadeiramente chateado com a personagem. Temos também a riquíssima concepção arquitetônica e logística da mente, transformando a consciência numa sala de comando avançada, memórias em esferas que se deslocam por trens do pensamento e que se armazenam em prateleiras dispostas à distância tal como as circunvoluções anatômicas do cérebro. Além do mais, embora a noção compartimental da mente possa ferir alguns princípios modernos da neurociência (pensando bem... o filme já retrata homunculos cerebrais da emoção... então ok), ainda assim é aceitável, em nome da liberdade poética, a exploração "territorial" de "regiões remotas” da mente, como um departamento responsável pela Fantasia (a construção mental daquilo que não faz parte do mundo material, porém, baseando-se em elementos oriundo de lá), a existência de uma produtora cinematográfica de sonhos, além de uma câmara especialmente responsável em desconstruir conceitos abstratos, e claro, o subconsciente como um local intermediário entre a memória e o abismo do esquecimento, um lugar, segundo um dos personagens, “que mandam aqueles que causam problema”, sugerindo o mecanismo psicanalítico do recalque.
 
E falando na imaginação fantástica, é difícil não sermos capturados pelo carisma, musicalidade e entusiasmo do amigo imaginário Bing-Bong, ao mesmo tempo em que nos compadecemos com o seu temor de ser esquecido. A riqueza deste personagem reside no seu caráter simbólico, pois, na infância, o amigo imaginário é um constructo mental que tem a finalidade de moldar as preferências afetivas do indivíduo, a pessoa constrói a imagem de um amigo ideal e passa a ter um referencial subjetivo a cerca do que buscar em outras pessoas no mundo real. É por isso que Bing-Bong é um brincalhão infatigável que nunca abandona a sua amiga. Da mesma forma, às vésperas da adolescência, próximo da sexualidade se aflorar com mais intensidade, a demanda afetiva da criança começa a se deslocar do campo da amizade e instigar a busca por romance. É pelo mesmo princípio que o namorado imaginário (com seu bordão: “eu faço tudo pela Riley”) que vemos em tela é o sucedâneo natural do amigo imaginário, por isso que na história ambos se sacrificam para ajuda-la. Afinal, representam o conceito platônico de amor. Algo que, por sinal, em nome do amadurecimento psíquico e social, precisa ser superado.
 
Após Freud impingir uma ferida contra o narcisismo da humanidade, que antes da “teoria do inconsciente” acreditava ser soberana de seus próprios pensamentos e ações, descobrimos cada vez mais que nossas funções cognitivas não operam de maneira transparente, mas que nossa consciência é permanentemente turvada por pulsões instintuais que modulam nossa percepção da realidade. O grande mérito do filme reside em esclarecer de maneira pitoresca para o público infantil a natureza volúvel e fragmentária do sujeito, isto é, deles próprios... De modo que possam perceber que a individualidade é um constructo dinâmico moldado pelas emoções e definido por nossas mais valiosas lembranças, ajudando a combater a noção teológica de “alma” ou “espírito” como espécie de personalidade perene e transcendental. Dito isto, é importante ressaltar que a história evidencia a qualidade universal das emoções, arranjadas de modo diversificado entre humanos e (inclusive) animais, de modo a não levantar suspeita junto ao público infantil de que tudo que testemunharam tenha sido um fenômeno singular que tenha ocorrido unicamente na cabecinha de uma criança especial. O filme se esforça para deixar claro que compartilhamos, além do mesmo ambiente material, as mesmas ferramentas psicológicas, e que a nossa individualidade é construída a partir do autocontrole das emoções e das escolhas que alimentam o hábito das nossas inconstantes “ilhas de personalidade”, isto é, padrões de escolha e comportamento pregressos que elegemos como importante, de modo a definir o nosso caráter no presente e influenciar nossas decisões no futuro.
 

Crônica de Edvan Brandão Jr




Lava (curta-metragem da Pixar – 2015)

 

Jonas Rivera, um dos produtores da Pixar, comentou recentemente numa entrevista: "Podemos animar qualquer coisa. Mas só porque se pode animar tudo não quer dizer que você vai fazer isso". Dito isto, basta considerarmos que o referido estúdio de animação já deu vida para brinquedos e carros. Entre outras proezas do gênero (robôs mudos e espirituosos, monstros do armário, e por último “emoções”), personificou com calor humano e grande peso dramático diversos animais, como diferentes mamíferos, peixes e até insetos... A última e encantadora extravagância criativa foi obtida com este fascinante “Lava”. O curta-metragem retrata o romance geológico entre duas ilhas vulcânicas antropomorfizadas, onde a narrativa adota a forma de um musical, conduzido por uma bela e melodiosa canção, onde uma montagem liricamente eficaz associada à leveza de movimentos de câmera contemplativos, refletem com graça o estado de inquietação emocional dos personagens, garantindo em tela uma coreografia esteticamente alternativa, comandada pelo ritmo da câmera, que parece suprir a inércia fatídica dos personagens. Vale ressaltar que a melodia havaiana, tocada com ukulele, nos remete ao timbre melífluo da voz do saudoso Israel Kamakawiwo’ole, isto sem contar a semelhança do corpanzil entre o falecido cantor havaiano e o personagem vulcânico.

 

O curta retrata os inúmeros transtornos e adversidades que casualmente dificultam, ou até mesmo impossibilitam a trajetória romântica entre dois apaixonados. O obstáculo enfrentado pelos vulcões era de ordem geológica: enquanto um estava na superfície o outro permanecia submerso na escuridão do oceano, alternadamente por eras a fio. Desta forma, precisavam emergir no mesmo período e lateralmente alinhados para ficarem juntos...

 

Portanto, o paralelismo temático se estabelece genericamente a partir das dificuldades imprevisíveis que, às vezes, impossibilita que duas pessoas semelhantes, próximas e ávidas por amor, sequer tenham a oportunidade de se conhecerem; tal como o vulcão que cantava em nome do seu desejo por companhia e afeto, mas acreditava não ser escutado, mesmo quando a sua futura companheira estava tão próximo, apenas alguns metros abaixo d’água. Em contrapartida, podemos acompanhar a espera silenciosa do outro vulcão (de natureza feminina), nas profundezas do mar, contagiada pela canção e ávida em corresponder pela súplica de seu futuro amado. De outro modo, é duplamente trágico testemunharmos o revés da natureza que condena ambos ao sofrimento: o primeiro vulcão, prestes a iniciar outro ciclo de imersão total, tem um vislumbre tardio de uma “parceira” em potencial, que, por sua vez, acabara de emergir voltada para o sentido oposto, dando as costas para ele. Portanto, a tragédia pessoal desta última criatura foi ter vindo à tona para em seguida acreditar ter sido vítima da ilusão musical, por não encontrar o seu obstinado poeta e cantor.

 

Desta forma, percebemos que a desgraça dos vulcões era justamente sua inércia petrificada, tornando-os totalmente dependentes das forças da natureza para poderem se encontrar acidentalmente. No entanto, como já observamos, a música foi a única estratégia que, primeiramente, um dos vulcões desenvolveu para contornar a submissão ao acaso absoluto. Tal como um ser humano, aflito pela sua solidão, procura contornar a sua aparente falta de sorte romântica lançando mão de alguma estratégia que o coloque, de algum modo positivo, em evidência social para uma parceira em potencial que esteja próxima e que correria o risco de passar despercebida de outo modo. Finalmente, a película celebra a importância da vontade do indivíduo acompanhada do empenho resoluto em mudar sua atual condição, mesmo diante das contrariedades do ambiente. Isto ocorre quando o vulcão-cantor não aceita a fatalidade de estar condenado à solidão do mar, estando a sua parceira tão próximo. Assim, ao escutar a canção da sua amada e reconhecer a reciprocidade do seu sentimento, a sua paixão coloca-o em polvorosa, precipitando sua poderosa emersão de volta à superfície.

 

Quando finalmente encontram-se juntos e felizes, durante a canção eles agradecem a boa ventura, atribuindo a sua felicidade às forças da natureza: terra, céu e mar. Porém, apesar destas entidades influenciarem fortemente o seu estado geológico, sabemos que o destino do casal foi determinado pelo seu esforço pessoal, seja cantando ou reagindo ativamente à canção. Isto é, talvez se esperassem passivamente pela chegada um do outro, nunca se encontrariam, seguindo dramaticamente o ciclo da natureza. Portanto, o filme exorta os românticos à luta pela sua felicidade.

 

Um detalhe curioso acerca do humilde agradecimento dos vulcões para a natureza, é que alguns versos do refrão da música em inglês sofrem uma alteração na dublagem que prejudica a lógica da manifestação de gratidão dos personagens. Vejamos:

 

“Refrão: I have a dream, I hope will come true / That you're here with me, and I'm here with you / I wish that the earth, sea, the sky up above / Will send me someone to lava”

“Refrão: Eu digo que meu sonho é ter / Você junto a mim, eu junto a você / Alguém ao meu lado feliz eu ficava / E o nosso amor cinti-lava”

 

Os dois primeiros versos guardam relação coerente um com o outro, porém os dois últimos são totalmente incongruentes. Na versão original, a letra diz algo como: eu desejo que a terra, o mar e o céu, enviem alguém para a lava. Daí o reforço da sua gratidão, pois teria representado o trabalho profano de uma oração atendida. Em oposição a isto, temos também uma sátira aos antigos costumes dos povos pré-colombianos que habitavam o Havaí, onde os seus rituais de cunho religioso envolviam, algumas vezes, sacrifício humano no interior de vulcões, onde uma criatura era lançada para dentro da lava vulcânica em troca da realização de uma prece. Deste modo, no filme, ironicamente o vulcão solicita que a natureza envie alguém para a lava, no entanto, aqui o sentido é totalmente inocente, este “alguém” não passa de um semelhante para viver com amor ao seu lado.

 

Crônica de Edvan Brandão Jr