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Cisne Negro 
(Black Swan - 2011 - Darren Aronofsky)
 
 

Estudando os três últimos filmes de Darren Aronofsky, podemos notar uma forma clássica de estruturar narrativamente o conflito de seus protagonistas: seus personagens vivenciam um chocante colapso mental após constatarem alguma limitação dramática para exercer sua profissão com altivez. Em O Lutador, o personagem de Mickey Rourke, diante da velhice, não consegue lidar com o fracasso atual de uma afortunada carreira pregressa nos ringues, e para tentar resgatar a boa forma e o prestígio, acaba molestando o próprio corpo até a exaustão. Fonte da Vida retrata a busca de um cientista por respostas que transcendam a sabedoria tradicional, recorrendo à espiritualidade como forma de compensar o fracasso da sua ciência, após perder a esposa para o câncer. Assim, depois de o cineasta trabalhar com a figura do atleta e do cientista, Cisne Negro aborda o conflito de uma artista do balé, quando esta percebe que apenas a dança não seria o suficiente para obter êxito no grande trabalho de sua vida, pois também precisaria saber atuar, e para compensar os dotes de atriz que não possuía, estará disposta a fragmentar psicologicamente a sua individualidade, em nome da criação de um alter-ego eficaz para o seu novo papel na academia de dança.

 

Logo na introdução, Aronofsky faz questão de nos apresentar aos três elementos que darão estrutura narrativa à película. Primeiramente, ele nos encanta com a leveza angelical do balé, em seguida, introduz subitamente uma figura ameaçadora (vislumbre do mago rothbart) no mise-en-scène, e, por fim, nos permite saber que estávamos presenciando um devaneio (sonho acordado) de sua protagonista. Dado os subsídios do diretor, sabemos que o filme é delicado, ao retratar o balé como arte cênica; sombrio, quando menos esperarmos; e, principalmente, quando acreditarmos estar presenciando algo surreal, estaremos à mercê da ótica delirante da protagonista.

 

 

O filme retrata a história da bailarina Nina Sayers (Portman), por volta da primeira metade de sua terceira década de vida, que, apesar de ainda ser uma jovem mulher, já havia dedicado tempo demais da sua existência ao balé (sabendo que essas garotas começam por volta dos 5 anos de idade), considerando que, até então, não recebera o reconhecimento profissional compatível ao seu empenho. Além do mais, sofria enorme pressão vinda de sua mãe, que um dia também fora bailarina. Talvez, por ter lhe faltado talento na dança, ou até mesmo oportunidade, engravidando ainda na juventude, a progenitora viu todas as suas expectativas no balé se esvaírem precocemente. Dessa forma, a mulher nutria uma obsessão ambígua de contribuir com a carreira da filha, onde, ao mesmo tempo em que rigorosamente disciplinava a garota em seus ensaios, tinha um temor velado que a filha se tornasse uma bailarina bem sucedida, como ela nunca pudera ser. Sendo assim, o que de fato agradava aquela mulher era conviver com uma jovem bailarina que envelhecesse ao seu lado sem nunca prosperar na carreira, apesar de todos os seus esforços, para que assim, a mãe pudesse alimentar esta farsa caprichosa que acalentava a frustração do seu ego - querer compartilhar o fracasso na carreira, porém cultivando o amor incondicional pela arte. Além disso, tinha o costume de tratar a filha estranhamente com o perfil psicológico de uma criança petrificada, exatamente para reforçar sua imagem autoritária de mãe-instrutora.

 

 

Por sua vez, a jovem bailarina, apesar de talentosa e sempre muito aplicada, não aparentava ser exatamente uma pessoa ambiciosa, afinal, quando se depara com a proposta da nova temporada da academia de balé, encara de maneira despretensiosa a possibilidade de ser a protagonista da peça, no máximo tentando se ajustar de modo aplicado às sugestões do diretor da academia de dança, sem nunca acreditar verdadeiramente ser a mais capacitada para executar àquela função. Mas então, de modo repentino, ela recebe a notícia de que havia sido escalada para o papel principal da adaptação de “O Lago dos Cisnes”, onde teria que realizar o papel de Odette (Cisne Branco) e Odile (Cisne Negro), duas personagens de identidade diametralmente contrastantes: a primeira, de personalidade totalmente compatível com a de Nina, teria que ser inocente, meiga e virginal; enquanto a outra, de perfil absolutamente oposto ao da garota, seria maliciosa e altamente sensual. E a grande dificuldade estaria no desafio imposto pelo diretor: a bailarina teria que encarnar de modo visceral e, portanto, completamente convincente, não apenas ambas as coreografias, mas, sobretudo, a representação psicológica de cada personagem.

 

 

Para representar o “Cisne Branco” bastava Nina ser ela mesma, já que naturalmente possuía todos os atributos psicológicos e comportamentais da personagem. O grande problema estava em retratar o “Cisne Negro” de modo tão realista, como propunha Leroy (Vicent Cassel), o diretor responsável pela peça. Por tanto, para Nina, o verdadeiro desafio não era ter que executar dois papéis diferentes no mesmo trabalho, tampouco ser a protagonista do espetáculo; o grande empecilho, o qual a moça ainda não estava preparada, era ser cobrada, além de sua função de bailarina, também como atriz. Enquanto exímia bailarina, sua competência era indiscutível, seus movimentos eram delicados e tecnicamente irretocáveis, no entanto, Nina não fazia ideia de como atribuir uma personalidade à dança, especialmente uma que fosse diferente da sua. Dessa forma, por não se tratar de uma legítima atriz, com a característica de manipular de forma livre e conveniente o seu caráter, a bailarina teve que compensar esta limitação dramática através da construção – inconsciente – de uma personalidade paralela à sua, e que fosse compatível com o “Cisne Negro”. Para isto, teve que buscar uma inspiração, e o melhor modelo que encontrou foi Lilly (Mila Kunis), a desenvolta e recém chegada bailarina da academia.

 

 

É importante frisar que Nina empenha-se totalmente no projeto de encarnar com perfeição a outra personagem apenas porque isto se mostrou como uma barreira ao seu trabalho de dançarina, não por um arrogante capricho de grandeza. Aliás, deve-se salientar mais uma vez que Nina não era ambiciosa, pois: estava há muitos anos na academia de balé sem nunca desempenhar um papel de destaque, e aparentava não se importar muito com isso; embora, aparentemente, tenha demonstrado interesse diante da possibilidade de ser a protagonista da peça, não se abalou muito diante do blefe do diretor (alegando que ela não havia sido escolhida, apenas para em seguida lhe entregar o papel); em outro momento, insiste procurar Leroy, não porque desejava muito o papel, e sim porque queria lhe comunicar que já estava apta em executar o movimento final que havia errado no ensaio anterior; e por último, a sua indiferença diante dos patrocinadores do espetáculo na ocasião pomposa do seu anúncio como protagonista. Dessa forma, a única preocupação de Nina era fazer tudo correto, e alcançar, antes da admiração do público, a aprovação técnica do diretor da academia de balé.

 

 

A partir daí, testemunharemos a transformação gradual da bailarina através da assimilação dos valores do “Cisne Negro”, especialmente, realçando sua sexualidade reprimida e desafiando a mãe diante da insistência em tratá-la inapropriadamente como uma criança. Feito isso, por ser altamente seguidora de regras e flagrar-se emitindo uma série de comportamentos tão conflitantes, a garota começa a desenvolver alucinações de estar transformando-se fisicamente em cisne, sendo esta, também, uma ótima maneira de exteriorizar simbolicamente a sua transformação interna. Temos também outro forte momento simbólico na história: a fantasia de Nina estar fazendo sexo com Lilly, o modelo de sua inspiração, como uma nítida forma de aceitar e se conectar com seu alter ego em fase de construção. E claro, o ápice de toda a confusão mental em que a bailarina se encontrava era a sua mania de perseguição, ao acreditar que estavam conspirando contra ela em nome da cobiça pelo seu papel.

 

 

Finalmente, acompanhamos Nina na noite de abertura da apresentação do espetáculo. Devemos lembrar que ela se atrasa, por ter entrado em atrito com a mãe na noite anterior, e após um episódio de alucinações (um dos melhores do filme, em que nos espantamos ao notar suas pernas se envergarem subitamente como os membros inferiores de um pássaro), cai, bate a cabeça e desmaia. Então, como era de se esperar, sua mãe não perde a oportunidade de tentar boicotar o momento de sua consagração como destaque da peça, e informa à produção que a garota não iria poder comparecer. Deste modo, após acordar em cima da hora e enfrentar a mãe para sair de casa, Nina chega ao teatro e constata o seu grande temor: Lilly estava no seu lugar. Porém, isto era algo natural - devido a sua ausência repentina, uma substituta deveria estar de prontidão. No entanto, a bailarina encarou esta situação como uma manobra ardilosa, e o ocorrido apenas serviu para alimentar ainda mais sua fantasia de teor conspiratório.

 

 

O primeiro ato do balé é protagonizado pelo “Cisne Branco”, e como seria de se esperar, veremos Nina como a conhecemos, graciosa e tecnicamente eficaz, porém, também ansiosa e vulnerável, diante de toda a tensão vivenciada, esperando ter sua apresentação sabotada a qualquer momento por uma Lilly supostamente rancorosa por ter perdido o papel para ela. Deste modo, é natural que a bailarina transpareça toda sua ansiedade para a apresentação, assim, atrapalhando o companheiro que executava a manobra de sustenta-la no ar, levando-a ao chão, num momento desastroso para a apresentação.

 

 

Então, ao caminhar frustrada de volta ao seu camarim, para caracterizar o “Cisne Negro”, que entraria em seguida, veremos a cena mais rica de toda a narrativa. Ao entrar no camarim, decepcionada pelo momento de fracasso da apresentação, Nina encontra Lilly (a sua modelo de “Cisne Negro”, que em alguns momentos deixa de ser a sua amiga e confunde-se com sua própria imagem) esperando-a, sentada em sua cadeira (ocupando o seu lugar). O “Cisne Negro” olha para a moça de forma provocativa e lhe questiona se ela teria competência para o papel, em seguida, sugere maliciosamente que seria melhor deixar que ela (sua rival) o executasse. Neste momento, Nina sente-se verdadeiramente ameaçada, e procura revidar pela primeira vez. As “duas rivais” brigam dentro do camarim, Nina coloca-se em posição de vantagem ao jogar sua adversária contra o espelho, pois ao destruir este objeto (extensivamente explorado durante o filme), estaria extinguindo o anteparo responsável em “dar vida” a sua imagem, por outro prisma, estaria invalidando simbolicamente a sua autoprojeção, fazendo com que o “Cisne Negro” deixasse de ser apenas uma representação externa da sua pessoa. A imagem que a bailarina havia concebido, nos moldes de Lilly, teria que deixar de assombrá-la, para que então Nina pudesse se inspirar na construção de sua autêntica versão do pássaro sombrio. Então, à medida que perpetrava o atentado contra seu alter ego, em vez de propriamente destruí-lo, parecia estar assimilando-o; onde veremos que a morte, em vez de extingui-lo, era uma forma de dominá-lo, torná-lo íntimo, para que finalmente tivesse o domínio de poder evocar-lhe de forma autônoma durante a apresentação. A partir daí, veremos o bailado do “Cisne Negro”, fazendo uso de todos os seus atributos: sensualidade, malícia, arrogância, espontaneidade, irreverência... Finalizando a coreografia com uma sequência alucinante de múltiplos Fouetté’s, e à medida que as piruetas evoluem, gradativamente os braços da bailarina começam a ganhar penas, e a cena culmina com seus braços transformados em asas, numa exibição estonteante, para o êxtase do público diegético, e principalmente para o deleite do expectador cinematográfico (o que mostra toda a sutileza e apuro gráfico da equipe de efeitos especiais, que, ao ilustrar a fantasia de Nina se metamorfoseando em cisne, consegue, através de um efeito belo, simples, gradual e discreto, impactar de modo hipnotizante o espectador fílmico).

 

 

Em seguida, finalizada a performance que tanta lhe ameaçava, Nina regressa ao camarim, triunfante, porém, atormentada pela culpa de ter cometido um suposto assassinato. Entretanto, para seu alívio, Lilly vem até a porta parabeniza-la. Dessa forma, a moça constata que o assassinato não teria passado de uma ilusão, e aquilo lhe purifica da frieza de ter cometido um crime. Mas é aí, que para sua aflição, a bailarina percebe estar com um grave ferimento no abdômen, o que mais uma vez não passará de uma alucinação, só que agora para facilitar a sua entrega ao papel de “Cisne Branco”, deixando-a fragilizada (pela ferida) e ao mesmo tempo sofrida e sem esperanças diante da iminência de sua morte (devido a gravidade da lesão). Já no palco, finaliza o último ato de forma sublime, acompanhado da morte do “Cisne Branco” ao se jogar de um penhasco. Terminado o espetáculo, vemos Nina no chão, sangrando e fortemente abatida, enquanto todos na platéia a ovacionavam, e, para o susto de Leroy (diretor da academia), a moça estava prostrada, em vez de entusiasmada com o seu sucesso. O que é claro, nada mais foi do que uma forma de alimentar a sua fantasia de morte (necessária à performance do último ato), o que lhe deixou estuporada, chegando a deixar Leroy confuso, ao supor que algo de errado pudesse ter acontecido, o que contribui para alimentar a própria fantasia do espectador-fílmico de que a protagonista estava morrendo. E neste caos, diante da preocupação de seu diretor, ao questioná-la sobre o que havia ocorrido, ou o que havia feito (para estar naquele estado), prontamente, a bailarina descreve de forma simplificada e objetiva a realização de seu mais profundo anseio, sem deixar de responder as duas perguntas que lhe foram feitas: “eu senti (o que ocorrera). Fui perfeita. (o que ela havia feito)”.

 

 

O filme, assim como o espetáculo cênico que acabamos de testemunhar, não apenas representa uma alegoria que exalta a obsessão de um artista na busca pela perfeição, como também a exemplifica, através de dois modelos bem sucedidos: Darren Aronofsky e Natalie Portman - ambos consagrados com o melhor trabalho de suas carreiras.

Crônica de Edvan Brandão Jr





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