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Birdman (ou A Inesperada Virtude da Ignorância) - [Iñárritu – 2014]

 

Birdman, através do foco dramatúrgico, retrata de modo cinematográfico o desafio narrativo da execução de um complexo exercício de metalinguagem, sobretudo pela ousadia estética de prescindir da montagem convencional, adotando, em teoria, um único plano-sequencia em quase toda a projeção, fazendo desta medida o principal componente expressivo da película. Adotar a metalinguagem como eixo narrativo será sempre uma iniciativa de grande ambição e especialmente perigosa, capaz de fazer vacilar até o mais experiente e talentoso realizador, sob o risco de sucumbir perante o seu próprio arroubo criativo. Soberbo, Iñarritu triunfa perante o desafio, entrega uma película esteticamente arrojada e conduz uma discussão eloquente acerca de um dos grandes conflitos da humanidade, que se manifesta através do indivíduo como a necessidade de ser amado; já o artista, que costumeiramente sublima esta exigência afetiva, revelará o desejo de ser culturalmente reconhecido, admirado e perpetuado pelo seu trabalho, transformando sua obra no bálsamo de sua memória.

 

O filme nos apresenta Riggan Thomson, um ator de cinema decadente, porém obstinado, que tenta se reinventar no campo artístico através do teatro, na tentativa de recuperar o prestígio de outrora que obtivera ao interpretar “Birdman”, um super-herói de histórias em quadrinho que estrelou uma bem sucedida franquia cinematográfica há mais de 20 anos. Desde então, o homem é assombrado por alucinações auditivas de seu célebre personagem, este, paradoxalmente, critica e deprecia os seus atuais esforços, ao mesmo tempo em que infunde delírios de grandeza em sua mente. Os problemas aumentam quando o então dramaturgo sente que está perdendo o controle sobre a sua peça, devido a chegada de um jovem ator vaidoso e de temperamento intempestivo, capaz de questionar frequentemente a sua autoridade como diretor, além de revelar-se um grande rival pela presença de palco.

 

A ambição de um grande artista será sempre abandonar o terreno árido do anonimato para alçar voo rumo à imensidão gloriosa do estrelato. Sendo assim, em determinado momento o filme insinuará textualmente que o “homem-pássaro” é uma metáfora para o mito de “Ícaro”. O que nos permite a inferência: sair do chão não é tão difícil, a parte mais trabalhosa é planar com elegância pelo maior tempo que puder, já que o artista estará permanentemente vulnerável ao voar com “asas de Ícaro”. Na mitologia grega, Ícaro, o filho de Dédalo, recebeu de seu pai um par de asas composto artesanalmente de penas de pássaro avulsas, cingidas caprichosamente da cera do mel de abelha; para voar de modo seguro, tal artefato exigia muito equilíbrio e destreza para se manter na altitude adequada, afinal, caso se aproximasse muito do sol derreteria tragicamente a cera, em contrapartida, voar próximo da água deixaria as penas sujeitas ao peso da umidade, sabotando o voo da mesma maneira... Para o artista, arriscar se aquecer mais próximo do sol equivale a desafiar as normas vigentes, portanto, simboliza a ousadia de dar vazão ao seu impulso criativo, desapegado de amarras e convenções limitantes; por mais arrogante e perigoso que seja contrariar esta regras, tal subversão será sempre um desafio recompensador para aqueles que se atribuem o poder de adaptar, corrigir e transformar o status quo de acordo com a sua própria medida; talvez, provar que os outros estavam errados, que eram covardes e tinham medo de se aproximar um pouco mais do sol e ainda assim sair incólume para contar a sua história. No entanto, naturalmente, vão existir aqueles que terão receio de se arriscar em grandes alturas, preocupados com a estabilidade do voo, desenvolverão temor excessivo do sol, isto é, passam a ter medo de desafiar toda e qualquer convenção, perseguem fórmulas pré-estabelecidas para o sucesso, abraçam a mediocridade e com ela o caminho mais fácil para a aprovação alheia, acabam voando fatalmente de modo cada vez mais rasante, passam a sentir a falta de originalidade criativa pesar em suas asas. De uma forma ou de outra, o artista que não dominar a margem de segurança da altitude de seu voo, será tragado pela gravidade em direção ao mar, condenado a se afogar na profundeza abissal do esquecimento.

 

Riggan Thomson, no passado, munido das asas de Birdman, teve seu voo artístico abreviado pelo conformismo e autoindulgência de não ter tido audácia e versatilidade para fortalecer a sua carreira enquanto teve a oportunidade. Em outras palavras, adotou a postura covarde de voar na sua zona de conforto (ordinariamente próxima do mar), acabou engolfado pelo temido desprezo. Depois de vivenciar a dor do fracasso, o ator descobre que a busca pela popularidade é um exercício fútil, fadado a malograr por ser fugaz em sua essência. Portanto, o caminho infalível para a longevidade do prestígio, do reconhecimento duradouro, reside na ousadia criativa, isto é, na capacidade de impactar o público com “o novo” a ponto de redefinir o conceito do “atual”. Tal medida equivale a arremeter impetuosamente em direção ao sol, um perigo que apenas o artista talentoso, confiante e ambicioso é capaz de arriscar. Entretanto, devemos salientar que Thomson não era propriamente um artista virtuoso, mas apenas um homem de grande tenacidade que acaba sendo favorecido pelo acaso para criar intuitivamente um novo gênero dramático: aquilo que a crítica chamou de “ultra-realismo”. Percebemos que a sua peça acabou se tornando tão notória (ovacionada pelo público e pela crítica) não exatamente pelo conteúdo, e sim por sua forma. Esta, por sinal, totalmente acidental: o fato do diretor não ter autocontrole das suas emoções e nem rédeas sobre o jovem ator Mike Shiner, vai fazendo com que ele perca o domínio sobre a peça. Entretanto, é justamente a sua perseverança desordenada, sem nenhum planejamento racional, que acaba tornando o resultado curiosamente original no palco. Deste modo, o “sucesso”, resultante do conflito de bastidores, aliado aos tropeços eventualmente certeiros de um artista que sabia o que queria sem saber exatamente o que estava fazendo, foi o que justificou a acidez paradoxal do título atribuído pela crítica do jornal: A Inesperada Virtude da Ignorância.

 

A escalação de Michael Keaton foi pensada a favor de seu apelo poético, devido à semelhança do personagem com a trajetória particular do ator. Durante a década de 90, Keaton teve sua carreira consagrada por seu elogiado trabalho na primeira grande adaptação de Batman para os cinemas, provavelmente, até hoje o super-herói mais cultuado das histórias em quadrinho. Depois do enorme sucesso alcançado por dois filmes, o ator decidiu não viver o homem-morcego num terceiro momento, devido a divergências criativas. Fatalmente, não conseguiu sustentar sua carreira longe do traje de morcegão... Entretanto, hoje, mais de vinte anos depois, Michael Keaton ressurge como o grande protagonista de um filme que, parafraseando o seu próprio personagem: parece uma versão deformada de sua própria vida. Apesar disso, ou melhor, especialmente em função disso, sua atuação consegue ser tão poderosa, cativante e visceral. Após este trabalho, qualquer cinéfilo, crítico e profissional do meio estarão se questionando: como todo este potencial do ator tem sido desperdiçado há tanto tempo? Na verdade, podemos admitir que ele sempre fora um bom ator, mas este projeto em particular foi a oportunidade áurea do seu regresso ao estrelato, certamente o roteiro foi planejado para ser dele, isto, aliado a composição estética peculiar do filme, foi o suficiente para destacar sobranceiramente a sua meritória contribuição no projeto.

 

A grande força representativa de Birdman está no longuíssimo plano-sequencia (teórico) que perfaz praticamente toda a projeção. A trama retrata o emprego do ultrarrealismo como forma de impactar o público, um recurso impressionista que retira parcialmente a autoridade do dramaturgo e a transfere aos atores, que passam a compartilhar com o diretor da peça a sua responsabilidade criativa. É por isso que Riggam Thomson deve parte do êxito de sua obra, e acidental inovação artística, ao conflito dialético vivido no palco junto com o insubordinado Mike Shiner. Da mesma forma, Iñarritu mimetiza em seu filme o hiper-realismo ao ignorar de modo conveniente o papel expressivo da montagem para o cinema. O extenso plano-sequencia (que na verdade pode ser decomposto em alguns cortes imperceptíveis) retira grande parte do poder da equipe de montagem sobre o filme (muitos espectadores desconhecem a extensão da influência da montagem sobre um filme: a capacidade de fragmentar livremente o espaço, tempo e ângulo de filmagem, e depois reordenar tudo de novo, muitas vezes mutila a impressão estética do diretor). Desta forma, Iñarritu se associa com Emmanuel Lubezki (um dos maiores diretores de fotografia da atualidade, experiente em rodar memoráveis planos-sequencia em sua carreira) para juntos terem o domínio total da mise en scène do projeto, fazendo com que a sua força esteja no planejamento conjunto da cena e na imagem em movimento (aqui, é necessária uma pausa para aplaudirmos também o trabalho impecável do operador de steadicam). Devemos destacar a excelente manipulação da fotografia, elegante em construir elipses apenas com movimentos de câmera e time-lapse, além da dinâmica execução dos cortes não aparentes que se operam, por exemplo, quando determinado plano persegue um personagem até este entrar e sair de uma região de penumbra, simulando visualmente fade out e fade in.

 

Devemos salientar o seguinte, apesar de o filme prescindir da montagem por um longo período, a fim de exaltar seus outros méritos técnicos, definitivamente não podemos afirmar que a obra chega a rejeitar esta valorosa forma de expressão. Nas raras ocasiões em que a película é editada (no início e no fim da exibição) podemos notar a inserção de duas imagens desligadas do enredo, mas que se configuram como um par elusivo de metáforas visuais, são elas: um meteorito flamejante rasgando o céu em direção à terra, e um conjunto de águas-vivas no litoral de uma praia. Estas imagens representam um desdobramento alegorizante para os perigos do voo com asas de Ícaro: caso o sujeito se aproxime perigosamente do sol, corre o risco de ser incendiado e tombar em queda livre (tal como o meteorito), em contrapartida, voar de maneira muito rasante pode fazê-lo vítima do mar, as duas situações valem como fracasso: a água-viva simboliza o “fogo da água” (devido suas células urticantes), portanto, o contato com este animal equivale a ser “queimado” pelo mar.

 

Embora Birdman se proponha a ser tecnicamente hiper-realista, alguns espectadores podem achar contraditório o fato das alucinações de Riggam Thomson se misturarem com a realidade sensível do filme. Veremos que a adoção deste recurso narrativo será responsável pelo argumento simbólico mais forte da história. Para isso, temos que ter em mente uma premissa: todo indivíduo espirituoso e sonhador possui uma mente em franca ebulição criativa, se pudéssemos enxergar o mundo com os seus olhos veríamos que o conteúdo latente de suas ideias é essencialmente paranoico; o artista é a pessoa que possui o talento de exteriorizar esta miríade de ideias fantásticas para o mundo real, conferir corpo e forma para os seus sonhos. No filme, o público tem a perspectiva esquizofrênica de vislumbrar as fantasias do protagonista. Devemos notar que, até determinado ponto, elas só afetam o seu ponto de vista: logo na primeira cena, quando o filme nos apresenta o seu ator principal em meditação, flutuando a um metro do solo, somos levados a acreditar que aquele homem possua alguma capacidade sobre-humana; em seguida, quando acidentalmente um refletor despenca na cabeça de outro personagem, estamos suscetíveis a pensar que a vontade do protagonista determinara o ocorrido; porém, aos poucos descobrimos a farsa: o aparente poder telecinético, por exemplo, visto por outra pessoa, acaba mostrando ser Thomson fazendo as coisas com as próprias mãos (destruindo seu camarim); em determinado momento descobrimos que até a trilha sonora fazia parte da sua imaginação, tocada por um baterista que só se revela irreal quando, absurdamente, aparece apresentando-se dentro de um corredor estreito nos bastidores do teatro; além disso, percebemos que a sequência que envolve o salto de um prédio seguido por um voo elegante entre as ruas de Manhattan, na verdade foi apenas uma trivial corrida de taxi. Portanto, o drama de Riggam é o mesmo de todo artista: a conflituosa necessidade de traduzir suas fantasias para o mundo real.

 

O que nos leva diretamente à enigmática cena final: na enfermaria de um hospital, recuperando-se de um tiro na própria face, após a estreia apoteótica de sua peça, celebrada pelo público e pela crítica, Thomson inexplicavelmente salta pela janela do prédio e parece não morrer, talvez até voar – pelo menos é o que sugere o sorriso de sua filha ao olhar para cima. A partir de agora, precisamos entender este plano-sequencia final como uma ruptura na lógica interna do filme, uma subversão da sua estrutura narrativa, neste momento realidade e fantasia se misturam. O protagonista teve a sua missão cumprida, por meio do reconhecimento massivo do público e aclamação da crítica, portanto ele se apercebe novamente como um legítimo artista (não mais o lunático que era antes), o curativo do seu rosto é uma alusão ao design da máscara do Birdman, isto é, um adereço do uniforme que no passado lhe conferira poder. Confiante, vai até o espelho do banheiro e se surpreende ao perceber que o seu nariz estava bem (sua face deveria estar desfigurada!), ele encontrava-se mentalmente tão seguro que nem o homem-pássaro, timidamente sentado no vaso sanitário, não ousou mais desafia-lo, afinal, a partir de agora, para existir, Thomson não precisaria ter de viver à sombra de seu antigo personagem (por isso ele descarta o curativo/máscara). Então, volta para o quarto, se aproxima da janela e aparentemente resolve saltar. Embora por um momento fiquemos sem saber o resultado daquele ato, descobrimos que um evento fantástico de fato acontecera (ele sobreviver e voar!), afinal isto sensibilizou o olhar de uma segunda pessoa: no caso a sua filha, que chega logo em seguida ao recinto. O que nos faz perceber que para ele a fronteira entre realidade e fantasia deixara de existir, tal como figurativamente é para um artista! E isto só se prova verdadeiro quando a imaginação deste é capaz de sensibilizar a realidade alheia. Sim, agora Riggam Thomson poderia ser considerado um artista...

 

Diante de todo o sacrifício humano que testemunhamos, uma discussão que a história propõe é ressaltar a responsabilidade do crítico profissional ao julgar uma obra (seja uma peça de teatro ou um filme). Por mais empedernido e rigoroso que ele seja, a função de um crítico é exclusivamente julgar o material que tem em mãos pelo seu mérito intrínseco, não é de sua alçada condenar a vida pública de um artista, entres outros motivos pelos eventuais excessos de sua vida privada, e com isso estereotipar de modo degradante a sua obra. Deste modo, o filme salienta a existência dos críticos indolentes, que, por orgulho e preguiça intelectual, apenas se prestam a rotular superficialmente o esforço hercúleo de um trabalho artístico. Uma crítica verdadeira não consiste em atribuir nota ou etiquetar conceitos (bom/ruim), isto qualquer espectador comum pode fazer, só o que lhe falta é a autoridade e o meio para ser ouvido. O crítico de arte é aquele capaz de abstrair profundamente diante da experiência, desconstruir uma obra de modo a torna-la amplamente cognoscível, em outras palavras, sua missão é traduzir a poesia da arte para a linguagem escrita. Portanto, esta é uma função primorosa e extremamente necessária, requer sensibilidade e talento próprio. Portanto, assim como é no meio artístico, existem críticos medíocres, que além de desprestigiarem a classe ainda prestam um enorme desserviço à arte. No filme, Tabitha Dickinson, a crítica arrogante do New York Times, indicava ser uma representante infame daquele grupo, mas no final se redimiu e teve a hombridade de reconhecer o trabalho de Thomson.

 

Retomando o último raciocínio da introdução deste texto, assim como a epígrafe de Raymond Carver no início da película, devemos perceber a maneira que o filme trabalha como subtexto o anseio humano imperativo por reconhecimento e aceitação alheia: enquanto Riggan Thomson lutava para defender o seu status de artista, o protagonista da sua peça retrata um sujeito patético que reconhece a falência da sua busca por amor; por sua vez, a jovem Sam é uma adolescente problemática que parece implorar por algum afeto de seu pai, e por não conseguir, tenta encontra-lo no primeiro homem que lhe confere um pouco de atenção. Mike Shinner (vivido com grande intensidade e carisma por Edward Norton) é o contraponto dramático da história: um narcisista, por definição autossuficiente no campo emocional, parece desafiar permanentemente a “fraqueza” dos demais personagens.

 

Independente do veredito da temporada de premiações, Birdman está destinado a tornar-se um clássico do “cinema dos bastidores do cinema”. A abordagem teatral apenas confere o distanciamento necessário ao apelo universal das artes cênicas, onde o cinema é a manifestação moderna desta forma de expressão. Narrativamente ousado e tecnicamente impecável, o exercício de metalinguagem só não atinge proporções lendárias por não ter sido escrito e dirigido pelo próprio Michael Keaton. A verdade é que poucos atores tem o privilégio de receber um papel poeticamente feito sob encomenda para si, depois deste projeto Keaton será obrigado a repensar todo o histórico de sua carreira, pois, se na década de 90 Tim Burton lhe trouxe notoriedade e fama com “Os Fantasmas Se Divertem” e “Batman” (apenas para em seguida lhe abandonar ao ostracismo), a tarefa inconteste de prova-lo um artista coube a Alejandro González Iñarritu. Doravante, a escolha de seus próximos papeis exigirá maior cautela e seriedade, pois Michael Keaton será lembrado por uma performance dramática memorável, contida num filme prodigiosamente autoral, não mais como apenas outro ator que servira de estofamento humano para o traje de homem-morcego.

 

 

Crônica de Edvan Brandão Jr