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O Curioso Caso de Benjamin Button                                         
(The Curious Case of Benjamin Button - 2009 - David Fincher - roteiro de Erich Roth)


A gênese da história todo mundo já sabe, o roteiro foi baseado no conto homônimo de Scott Fitzgerald, que por sua vez foi inspirado num devaneio contido em uma frase atribuída a Mark Twain: “A vida seria infinitamente mais feliz se pudéssemos nascer aos 80 anos e gradualmente chegar aos 18". No entanto, o que poucos realmente sabem é que, apesar de estar ancorada em referências terciárias, a obra cinematográfica em questão ainda consegue ser paradoxalmente original. Destacando para o grande público o papel decisivo do veterano roteirista Erich Roth (Forest Gump), isto é, quem de fato, deveria desfrutar integralmente do mérito de ter elaborado a narrativa conspícua que vemos em projeção. Tudo bem, a frase de Twain é um tanto superficial e despretensiosa, assim como qualquer frase tresloucada proferida num lampejo criativo. Entretanto, para quem assistiu ao filme, e pretendeu enriquecer ainda mais a sua experiência através do texto original, ler o conto de Fitzgerald se revelará decepcionante (indo brutalmente de encontro à lógica que conhecemos para adaptações cinematográficas inspiradas na literatura, onde, por mais excepcional que seja o filme, a publicação livresca quase sempre será superior). Para a surpresa do leitor pós-filme, o conto, apesar de ligeiramente trágico, mostrar-se-á desregradamente cômico, o que irá minar sua identidade dramática e arruinar sua função enquanto alegoria, comprometendo drasticamente a suspensão da descrença numa história de apelo fantástico inserida em uma atmosfera fundamentalmente realista. Infelizmente, a falta de seriedade de Fitzgerald para conduzir a história de enorme potencial dramático que tinha em mãos foi sabotada pela sua tentativa infeliz de torná-la irreverente. Se destacarmos apenas algumas situações aberrantes, veremos que, na história original, Benjamin nasceu: sabendo falar com grande fluência, com barbas compridas, estranhamente com a altura de uma criança “crescida”, fumava o cachimbo de seu pai. Tudo isso, apenas descrevendo o aspecto caricatural do protagonista, sem mencionar as estapafúrdias inevitáveis que poderíamos esperar de uma narrativa como esta... Porém, felizmente, contrariando todas as expectativas de um leitor de primeira-viagem, a adaptação cinematográfica consegue ser pujante, realista, séria, intimista e temperada por um tom reflexivo agridoce.


Após este preâmbulo, envolvendo a história que deu origem ao filme, meu objetivo é fazer jus ao trabalho do premiado roteirista Erich Roth, afinal, não seria exagero declarar que a frase de Twain (por mais vaga que seja) exerce mais influência na composição da história do que o empreendimento literário de Fitzgerald. Aliás, em termos práticos, o crédito que resta para este último autor é quase unicamente o título e o nome dos personagens, o que torna a iniciativa do filme de referenciá-lo uma inevitável homenagem a sua persona autoral (por ser um autor influente na literatura norte americana), mais do que uma fiel adaptação de sua obra.  


Agora podemos falar sobre o que realmente importa, a belíssima e memorável composição cinematográfica de O Curioso Caso de Benjamin Button: uma alegoria impecável sobre o envelhecimento, suas mazelas e seu conflito com a juventude, elaborada através da dicotomia cronológica entre mente e corpo.


Sabemos que um excelente roteiro não é o suficiente para a realização de um ótimo filme, porém, um roteiro medíocre nas mãos de um talentoso diretor (dispondo dos recursos que necessita) pode tornar-se um bom exercício de escapismo. Benjamin Button poderia ter se perdido nas mãos de algum roteirista errado (que o aproximasse da história apresentada no conto), e se o roteiro decepcionasse, neste caso, suspeito que o diretor não teria condições de melhorá-lo. É aí que notamos o acerto dos produtores do filme (o célebre “casal 20” da produção hollywoodiana: Frank Marshall e Kathleen Kennedy), que tiveram o cuidado de escolher o roteirista certo para o trabalho, com autonomia o suficiente para tornar o texto de Fitzgerald apenas o vago argumento do roteiro, desta forma, permitiram que Erich Roth tivesse a devida liberdade de imprimir suas marcas autorais no projeto, afinal, uma simples “adaptação saudosa” do conto tenderia ao desastre. Diferente da situação anterior (comodidade na escolha de um roteirista de peso, além de familiarizado com este tipo de projeto), o outro grande acerto da equipe de produção esteve na escolha de risco feita para a direção, haja vista que, apesar de muito bem acolhido pelo público e pela crítica, David Fincher tinha uma carreira até então consagrada por thrillers, e este próximo trabalho possuiria uma atmosfera essencialmente dramática, introspectiva (só que bem diferente do estilo de Edward Norton em Clube da Luta), além de apresentar uma lenta narrativa da história de uma vida inteira (muito diferente do ritmo frenético de seus filmes - sobretudo - policiais). Sendo assim, como todo grande projeto, o filme começou dando muito certo desde a pré-produção, através do alinhamento celestial entre Produção, Roteirista e Diretor; sem falar da equipe técnica, que nos ofereceu um deslumbramento à parte.


A história de Benjamin Button é delicadamente precedida por uma sub-trama envolvendo um relojoeiro cego que perde seu filho durante a primeira guerra mundial, o que acaba motivando aquele homem a homenagear a memória do rapaz, assim como a de todos os jovens que morreram em batalha, por meio da construção de um relógio que funcionasse no sentido inverso, alimentando a esperança ilusória que o tempo pudesse retroceder, trazendo consigo os jovens que nunca mais regressariam para suas famílias. E assim, por coincidência, quando o relógio “especial” é inaugurado e a guerra termina, nasce o pequeno Benjamin, que por motivos obscuros incorpora em sua essência a mágica inerente que fora idealizada para o funcionamento do relógio. Assim como a máquina, o filho dos Button “funciona” no sentido inverso, embora, paradoxalmente, mantenha o curso de sua evolução inalterado (devemos observar que apenas o ponteiro dos segundos do relógio é que retrocede, os minutos e as horas progridem). Benjamin tem seu tempo curiosamente invertido, no que tange a evolução do corpo, entretanto, psicologicamente ele se desenvolve como qualquer pessoa.


Para ser honesto, talvez o grande mérito do filme seja o fato de a sua narrativa, a despeito de seu profundo e inspirador potencial reflexivo, ser didática e emocionalmente compreensível. A película não se constrói em cima de metáforas visuais intrincadas, jogo de montagem enigmático, diálogos aforismáticos poeticamente impenetráveis... Não. O argumento da película é transmitido de maneira transparente e modesta, simplesmente revela-se para o expectador como a oportunidade de acompanhar a vida de um homem simples, Benjamin Button, que ganhou ares de excepcionalidade por ter nascido com uma aparência incomum. Se fizermos outra leitura, veremos que o protagonista se trata de um indivíduo que nasce com uma “doença” que o leva a ser rejeitado pelo pai e a ter uma vida social repleta de privações, e então, paulatinamente, alcança a “cura”, torna-se aceito socialmente, prospera, alcança suas ambições; apenas para que mais tarde traços variantes da mesma “doença” desestabilizem sua vida, impondo-lhe novos percalços, tragicamente fazendo com que o final de sua vida seja tão frustrante quanto o seu início.


Como já foi frisado, o fascínio pelo filme encontra-se particularmente na forma como o espectador reage emocionalmente às cenas, mais do que por sua interpretação formal. Observamos uma sequência de momentos tocantes vivenciados pelo protagonista: a espontaneidade com que ele se adapta em viver no asilo e as lições de vida que lá ele aprende; o seu primeiro e único verdadeiro amor, que ele conhece na infância, e irá acompanhá-lo por toda a vida - porém, nunca retratado de forma ideal, pelo contrário, sempre evidenciando as tormentas de um relacionamento tão longo e especial -; a busca por autonomia numa jornada de autodescoberta, viajando pelo mundo e conhecendo novas pessoas; o admirável acolhimento materno de Queenie e o louvável arrependimento paterno, seguido da reconciliação, de Thomas Button... Enfim, para poupar extensas descrições, um pouco da essência do longa pode ser facilmente captado apenas pelas ponderações evocadas por alguns momentos prosaicos de reflexão existencial retirados do próprio diário de Benjamin; como os exemplos que se seguem:

 

"Para o que vale a pena, nada é muito tarde, ou no meu caso muito cedo – para ser quem você quer ser. Não há tempo limite; você para quando quiser. Você pode mudar, ou ficar igual – não há regras para isso. Nós podemos tirar o melhor ou o pior disso. Eu espero que você tire o melhor. Eu espero que você veja coisas que te deixem sobressaltada. Espero que você sinta coisas que nunca sentiu antes. Eu espero que você conheça pessoas com um ponto de vista diferente do seu. Eu espero que você viva uma vida que se orgulhe. Se você achar que não está acontecendo, eu espero que você tenha a força para recomeçar tudo de novo." (mensagem de Benjamin para Dayse - anexada ao diário -, enquanto este viajava pelo mundo após o seu exílio)

"Queria ter podido lhe dar boa-noite. Queria ter podido te levar ao primeiro dia de aula. Queria estar presente para poder lhe ensinar piano. Queria ter podido dizer para não ir atrás do garoto. Ter podido abraçar você numa hora de dor. Queria ter podido ser seu pai. Nada que eu fizer vai poder substituir isso." (momento particularmente tocante, onde Caroline, após ficar sabendo da identidade de seu verdadeiro pai, começa a ler as cartas que este a endereçou durante o seu exílio)

Entre várias outras passagens, é uma satisfação constatarmos que inclusive as desventuras do pobre idoso que fora sete vezes atingido por um raio, servindo de puro alívio cômico para o filme, no final servirá para engendrar outro belo momento da história, ao mencionar: "Sou cego de um olho, não ouço muito bem... tenho espasmos musculares e tremores contínuos, às vezes perco a linha do pensamento... Mas sabe de uma coisa? Deus tem me lembrado sempre da sorte que tenho por estar vivo."

 

Apesar de todos os incontestáveis méritos do roteiro, alguns tentaram criticá-lo pelo enredo, que de certa forma assemelha-se à Forrest Gump – também de Erich Roth. Vejamos as semelhanças entre os protagonistas das diferentes obras: os filmes retratam a história inteira de suas vidas (especialmente em Benjamin Button), se apaixonam e realizam na vida adulta o amor mal correspondido de sua infância, fazem grandes viagens e testemunham alguns momentos históricos (principalmente em Forrest Gump), são discriminados em alguns momentos por serem pessoas “diferentes” e, finalmente, ambos se preocupam se o seu caráter “distinto” (físico para um, e mental para o outro) será transmitido para a sua prole. Desta forma, para dialogar com os críticos que se aborreceram com a “falta de originalidade” do roteiro, mencionarei alguns casos semelhantes que, além de não terem incomodado o público e a crítica, foram consagrados e deram muito certo.


Apenas para ilustrar, Romeu e Julieta não partiu de um argumento original de Shakespeare, a mais clássica história de amor de todos os tempos se inspira no conto romântico de “Píramo e Tisbe”, da mitologia greco-romana, sem contar algumas outras versões teatrais espúrias, similares, e que supostamente precederam à do célebre dramaturgo Inglês. Na literatura, particularmente, isto é muito comum. Dan Brown, para citar um romancista talentoso, contemporâneo e mainstream, na sua coleção envolvendo Robert Langdon mantém nitidamente uma fórmula pronta, e, por mais que pareça intransigente em segui-la, consegue transmitir originalidade à sua maneira em cada uma das histórias.  Falando sobre cineastas, quem nunca detectou o estilo inconfundível de fazer cinema de Wood Allen, muitas das suas histórias são semelhantes entre si (apresentam rimas temáticas), enfim, uma miríade de autorretratos parodiando os dramas existenciais do próprio autor... Parando apenas por aqui, no que poderia ser uma lista exaustiva. Porém, quero apenas salientar que nos exemplos anteriores ninguém condena àqueles autores, assim como não faz sentido implicar com as discretas semelhanças nos dois melhores roteiros de Erich Roth – e se for para manter a qualidade, que venha um terceiro nestes moldes.


Indo além, houveram outros (talvez até, principalmente, os mesmos críticos de antes) que acharam de mau gosto a estratégia narrativa de contar o filme em flash back, por meio do diário de Benjamin, somado à iminente aproximação do furacão Katrina. Devemos perceber que os principais momentos do enredo são aqueles acompanhados do julgamento crítico e reflexivo do protagonista, o que, vindo da leitura de um diário, torna natural e bem justificada a intrusiva eloquência da voz em off do narrador. Apesar da aflição do garotinho Button ter desenvolvido demência senil, a beleza poética deste fato se completa por sua preocupação em registrar os episódios de sua vida num diário, para que sua memória não fosse esquecida pelo seu grande amor e, sobretudo, para que na ocasião certa sua filha descobrisse a história de seu verdadeiro pai. O furacão Katrina foi apenas um recurso para tentar trazer verossimilhança à ficção, além de criar tensão e urgência nas cenas que se desenvolveram no hospital.


Finalmente, não podemos deixar de enaltecer as duas maiores proezas técnicas do filme. Maquiagem e efeitos especiais foram impecáveis na construção de Benjamin Button em todas as suas fases de vida, fora a grande façanha de permitir que Brad Pitt conseguisse atuar natural e expressivamente em volta de tanta artificialidade cênica; além do mais, tal recurso técnico foi igualmente eficaz ao compor organicamente o envelhecimento de Daisy e outros personagens, o que acabou garantindo alguns prêmios técnicos de consolo no Óscar 2009 (apenas três, num total de treze indicações!). Ainda assim, para quem saiu enlevado da sessão de cinema, com a certeza de ter assistido um dos melhores filmes de sua vida, foi impossível não ficar consternado pela obra não ter sido merecidamente reconhecida nas categorias “nobres” do Óscar. Naquele ano da premiação, Benjamin Button, o favorito da noite, um filme memorável e de grande relevância artística, capaz de conduzir seus expectadores a uma grata e emocionante reflexão existencial, tristemente sucumbiu diante de um melodrama cafona e comercialmente eficaz (Quem Quer Ser um Milionário). O que sabemos é que a Academia não fez jus à sua pretensa função, logo no ano em que deveria legitimar o reconhecimento de um clássico moderno para o cinema (e que daqui a 50 anos, certamente, será lembrado como um clássico saudoso)... Quando chegamos ao fim da experiência, nossos dramas se confundem com os do protagonista e por um momento esquecemos a sua natureza insólita, percebemos que ele teve uma vida tão normal quanto qualquer um deveria ter: cresceu num ambiente acolhedor, cultivou amizades, teve humildade para aprender o que não sabia, demonstrou paciência e determinação para conquistar o seu grande amor, soube perdoar, teve uma filha e fez tudo que estava ao seu alcance para que ela fosse feliz... Enfim, percebemos que a sua biografia foi incomum não por conta de seu envelhecimento bizarro, e sim devido a excepcional impressão que a sua existência deixou marcada na vida de outras pessoas.

 
 
 

Crônica de Edvan Brandão Jr