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ADAPTAÇÃO 
(Adaptation - 2002 - um filme de Charlie Kaufman com direção de Spike Jonze)
 
É curioso notarmos como na indústria cinematográfica (Charlie não aprovaria minha frieza ao designá-la assim) a figura do diretor sempre desfruta os principais méritos da autoria de um projeto. No entanto, tudo começa com um roteiro. E para que ele exista, antes de qualquer coisa, é preciso um tema interessante, inserido numa boa trama, bem estruturada dentro de um arco narrativo, uma lógica interna que sustente a verossimilhança dos desafios que se apresentarão ao protagonista, assim como construir personagens multifacetados e cativantes. E como se isto ainda não fosse o suficiente, em nome da manutenção dos valores artísticos do cinema (e isso Charlie compreende muito bem), é extremamente aconselhável que: o trabalho resultante de todos os elementos técnicos e narrativos que constroem um roteiro, seja capaz de desempenhar uma função reflexiva e, de preferência, inspiradora para o espectador. Desta forma, Adaptação retrata as dificuldades de um roteirista em tornar sua obra interessante e respeitada pelo público, ao invés de um mero embuste comercial. Apenas isso já poderia garantir um caráter crítico e reflexivo à proposta do filme, porém, Kaufman pretende  ir além do simples exercício de metalinguagem, sobrepõe outro viés narrativo à trama, deste modo, atribuindo-lhe uma lição francamente universal.

É importante percebermos o sério risco que o filme correu: tornar-se um exercício fútil e megalomaníaco de autoindulgência do roteirista Charlie Kaufman. Perigo muito bem contornado pela complexidade da história e pela direção eficiente de Spike Jonze. Deste modo, veremos que a película nos apresenta o retrato do labor autoral de Charlie (enquanto personagem, “parcialmente fictício”) na construção de um roteiro feito por encomenda para adaptar um romance problemático, aparentemente sem coesão narrativa para ser convertido num roteiro de cinema.  Em paralelo, acompanhamos as aventuras de Susan Orlean, autora do livro “O ladrão de orquídeas” (o romance em questão), inicialmente através de seus esforços para cobrir uma matéria jornalística feita com John Laroche, um horticultor excêntrico que estava em julgamento por haver encontrado uma forma de burlar a lei que condenava a extração de espécimes vegetais em extinção.

À medida que a interação entre a jornalista e o horticultor avança, inicialmente de modo um pouco relutante, entendemos de que forma aquele contato aparentemente banal, e feito com um indivíduo tão grosseiro, será capaz de ensejar a elaboração de um livro, baseado no conhecimento de mundo daquele homem, capaz de retratar sua peculiar capacidade de lidar com a própria vida de forma tão orgânica e natural (curiosamente, apesar de próximos, estes adjetivos, aqui, não são exatamente sinônimos). Susan se descobrirá encantada pela perspectiva apaixonante e ao mesmo tempo de total desapego que John conduz a própria existência; da mesma forma que ele é capaz de se interessar louca e intensamente por algo, pode esquecê-lo de prontidão, tão logo for necessário ou conveniente. Dessa forma, a jornalista passa a vislumbrar no estilo de vida daquele homem a inspiração necessária para libertar-se de seus infortúnios, causados pela sua dificuldade em renunciar algumas convenções sociais autolimitantes. E então, ao assimilar esta forma intrépida de encarar a vida, Susan começa a apaixonar-se por John (o que gera um nítido contraste estético, ao compararmos a beleza sempre angelical de Meryl Streep - tipicamente civilizada - com uma caracterização grotesca e primitiva de Chris Cooper), e mais do que isso, por conta de sua insegurança em se lançar ousadamente na vida, ela decide acompanhar o horticultor em sua meta de encontrar uma rara e cobiçada orquídea, provavelmente como forma de balizar-se na tentativa de obter suas próprias ambições pessoais e genuínas. E é com base na entrevista e nas aventuras vividas ao lado de John Laroche, em busca da exótica e famigerada planta, que a jornalista compõe o seu livro.


Falando sobre Charlie Kaufman, o roteirista de Adaptação, é estranho termos de assimilar a ousadia do cineasta em ter retratado não apenas um alter-ego repleto de similaridades consigo próprio, mas ter se transportado literalmente para o seu próprio roteiro (indo mais além que Wood Allen, por exemplo, que reiventa em seus filmes diversas versões não oficiais de si mesmo). E é importante notarmos que a sua atitude foi além da referida coragem artística, sendo capaz de suplantar o seu recato, afinal todas as suas agruras existenciais estavam na tela. Charlie, desde o início se apresenta como um homem: frustrado, inseguro, hipocondríaco e com um alarmante estado de baixa auto-estima; mas também se revela um cineasta perfeccionista e com notório engajamento artístico. Em tempo, não poderia deixar de frisar que toda a construção (ou seria projeção?) do personagem de Charlie apenas se sustenta pela excelente performance de Nicolas Cage, talvez a melhor de sua carreira (repleta de altos e baixos), ao transmitir o grau de decadência psicológico do personagem, assim como seu incômodo estado de languidez.

E como se não fosse o bastante colocar a si próprio no filme, o roteirista faz questão de inserir Donald, o irmão gêmeo, que, de forma brilhante, tematicamente irá se enquadrar na história como o antípoda da personalidade de Charlie. Donald, à priori, fará a vez de um alter-ego indesejável para Kaufman, ao mesmo tempo servindo para despertar-lhe a antipatia e a inveja, ambas motivadas pela virtude do irmão em “adaptar-se” facilmente às contingências da vida. Apesar de tudo, Donald nunca demonstrará qualquer tipo de ressentimento pela atitude implicante e recalcada do irmão, o que incomodará este ainda mais, evidenciando novamente a disparidade entre os dois. E para exasperar ainda mais a revolta do protagonista, seu irmão resolve envolver-se exatamente naquilo que era a única coisa sagrada para a vida de Charlie (que o fazia se sentir alguém competente, reconhecido e especial): escrever roteiros para o cinema. E para ficar ainda pior, o irmão consegue ser bem sucedido em sua empreitada, seguindo exatamente os princípios contrários ao de Charlie: sendo formulaico, simplista e mercadológico na sua abordagem, ao seguir exatamente os passos - veiculados num ciclo de palestras - preconizados por um veterano roteirista de sucesso. E finalmente, para levar o roteirista casmurro à loucura, Donald, apesar de compartilhar exatamente a mesma aparência do irmão (tida por este como execrável!), por meio de sua presença carismática, consegue ser bastante socializável e razoavelmente bem sucedido com as mulheres.

Delineado o esboço de cada um dos quatro personagens principais, podemos começar a interpretar a elegante ambigüidade do título da película, que torna a sua escolha um acerto genial. “Adaptação”, desde o início,levará o espectador a pensar que se trata unicamente da tarefa de um roteirista, contratado por um estúdio, em extrair um roteiro de cinema a partir de um romance qualquer. Entretanto, a acepção mais interessante do termo, para ser aplicada ao filme, é a que se refere ao significado darwiniano da palavra, não em sua leitura mais clássica, mas em relação ao grau de sofisticação da sociedade humana e de como nos esforçamos para nos “adaptar” a ela, como bons e evoluídos animais que somos. Sendo assim, podemos começar a perceber o paralelismo entre as duas tramas que constituem a narrativa, e o conflito resultante quando ambas se cruzam.


Desta forma, Susan representa uma boa jornalista e escritora em potencial que, no entanto, se mostrará insatisfeita com a vida, incapaz de buscar inspiração autêntica em suas próprias idéias e aventuras na hora de escrever um livro, o que faz dela uma pessoa descontente com a própria existência, ou, em outras palavras, mal “adaptada” à própria vida. Enquanto isso, John Laroche é um homem aventureiro e plenamente realizado, revela possuir metas de vida por demais excêntricas e - em sua maioria – fúteis, mas o que não o impede de realizá-las com afinco e sentir-se recompensado por isso, tornando-o, deste modo, bem “adaptado” à vida que escolheu. Com base nessa leitura, após Susan ter conseguido extrair-lhe uma confissão, percebemos que John se tornou bem “adaptado” por uma questão de pressão seletiva, talvez como única forma de não enlouquecer diante da tragédia familiar pela qual se sentiu culpado - algo que a jornalista chama de “passe livre” para a vida, como forma de justificar sua postura descompromissadamente audaciosa.

Por sua vez, constatamos que Charlie é um homem bastante infeliz, inseguro e particularmente frustrado em sua vida emocional. Ainda que a mulher que ele mais ame o transmita constantes demonstrações de interesse afetivo, Charlie era incapaz de: tomar a iniciativa para beijá-la, aceitar um convite explícito para entrar na casa dela, e menos ainda de declarar seus sentimentos. Enquanto isso, não hesitava entregar-se a fantasias e episódios de masturbação lamentáveis para um homem da sua idade e com o seu potencial. Enquanto isso, Donald não se importava nem um pouco com a aparência que compartilhava com seu irmão gêmeo, tinha uma forte auto-estima, era socializável e feliz com as mulheres. Então, por mostrar-se tão bem “adaptável” à vida, Donald, mesmo não tendo vocação para ser roteirista, apenas por admirar seu irmão resolve seguir a mesma profissão. E surpresa: acaba sendo bem sucedido, apenas por se adaptar a um padrão de escrita clichê e comercial, idealizado para ser vendido num workshop. E para completar a revolta do protagonista, seu irmão demonstra ter um admirável entrosamento com os profissionais do cinema (Donald consegue levar a atriz Katherine Keener em sua casa, enquanto Charlie não era reconhecido por ninguém no set de filmagens do filme que ele roteirizou).
 
 
Desesperançosos por sua insatisfação com a própria vida, Charlie e Susan resolvem seguir os passos tortos daqueles que tanto recriminavam. O roteirista decide fazer o curso dinâmico indicado por seu irmão, consegue extrair uma mensagem inspiradora das palavras do veterano palestrante, Robert McKee (Brian Cox), porém, sem deixar corromper a essência do estilo de sua escrita, apenas enriquecendo-a com a fonte que contribuiu para o engrandecimento de seu irmão; conseguindo através da própria vida, vislumbrada por outra perspectiva, a inspiração para compor o trabalhoso roteiro. Por sua vez, Susan falha miseravelmente ao buscar o caminho mais fácil no processo de “adaptação”: em vez de seguir o conselho de Laroche, procurando ter metas bem estabelecidas na vida e ao mesmo tempo balanceadas com o devido desprendimento, a autora opta pelo caminho mais cômodo, simplesmente por não ter a maturidade de elaborar suas próprias metas e entregar-se a elas, resolve seguir os passos do horticultor na busca pela rara espécime de orquídea, até finalmente decepcionar-se com a descoberta de que diante da planta, para ela, a mesma não tinha o menor significado, enquanto que para o seu guia era uma grande recompensa. E assim, para tentar obter alguma satisfação residual daquela conquista, resolve fazer uso da droga extraída da planta, esforçando-se para compartilhar e usufruir minimamente do frenesi vivido por Laroche diante da sua vitória. Ao mesmo tempo que a fantasia da planta consome as últimas esperanças de Susan, como forma de compensação, a escritora traga a sua substância para extrair resquícios da felicidade que lhe fora prometida.

Fechando o arco narrativo de Charlie e Susan, o ato final não poderia se desenrolar em ambiente mais apropriado do que num pântano (lugar-comum para metáfora visual que represente o inconsciente dos personagens), onde as principais revelações e reviravoltas ocorrerão. A escritora, que inicialmente se apresentava civilizada, agora estará totalmente desequilibrada e com ímpeto assassino, por fim, arrependida por ter se entregado numa aventura mal sucedida, sem contar a decepção de admitir não ter vivido a vida que realmente quis para si, uma que pudesse fazê-la sentir-se feliz, completa e realizada (em certo momento, observamos a metáfora visual do desejo de retornar ao útero da mãe, como forma de negação a tudo que tenha vivido até então). Enquanto isso, Charlie, ao ver-se ameaçado, aprecia mais do que nunca o valor de sua vida e, finalmente, assimila a última mensagem que Donald tinha para lhe transmitir: quando amamos alguém, este sentimento é nosso, ninguém tem o direito de tirá-lo de nós, mesmo o ser amado, vivê-lo já é o bastante para nos sentirmos recompensados em estarmos aptos para senti-lo; quando não somos correspondidos, geralmente, o problema está na falta de sensibilidade do outro, e não exatamente por esta pessoa nos ser superior, e muito menos por sermos imperfeitos de mais para amá-la. E com este derradeiro aprendizado, antes da morte de seu irmão, Charlie incorpora de Donald as virtudes que faltavam para lhe completar, uma parte do irmão que morreu permanece naquele que continuou vivo. E não é por coincidência que o título (e refrão) da música tema entre os dois gêmeos, que inclusive Charlie usa para consolar o outro diante da morte (e que Donald sempre insistia em cantar para o irmão), era exatamente “Happy Together” (“Felizes Juntos”).

E se formos especular a respeito, não é difícil imaginarmos que Charlie Kaufman (sim, o do mundo real!) tenha passado por um período de insegurança criativa na hora de elaborar o argumento narrativo do terceiro longa-metragem assinado por ele. Afinal, depois do enorme sucesso de críticas para o seu trabalho em “Quero ser John Malkovich”, logo em seu primeiro roteiro sendo tido como cineasta talentoso e promissor, em seguida veio apenas o bom, mas irregular, “A Natureza Quase Humana”. Desta forma, naquela conjuntura de sua carreira, o roteirista estava precisando se consolidar como um talento legítimo em Hollywood, e deve ter passado por dificuldades ao exigir de si ao extremo. Felizmente, de toda esta tensão criativa, muito satisfatoriamente, ele nos presenteou com o criativo argumento de “Adaptação”. E para afastar qualquer olhar de desconfiança, cerca de dois anos depois, Charlie deixaria sua marca indelével para o cinema (e também faturaria seu primeiro Óscar) com o inestimável clássico moderno das histórias de romance: “Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças”.


Crônica de Edvan Brandão Júnior

 
 
 

                                    
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